A Menina Que Engoliu o Sapo
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Opinião



Caminho Da Reflexão


PEDAGOGIA DO OPRIMIDO, de Paulo Freire, Editora Paz e Terra, 2021, livro fundamental a ser desvendado no início de vida do ser humano. Com os pais, na escola e em todo relacionamento de vida.

Lido, relido e debatido para se entender o nosso por quê. Por que estamos aqui e o porquê do outro, sua realidade. Em um encontro de humanidade!

Um texto para acordar o ser, enquanto pensante, para ação e transformação. O homem em busca de uma sociedade política, econômica, social, afetiva, em diálogo. No Universo onde não existe o “é”. “Somos”! E assim o confronto de ideias se transforma na razão do diálogo de ideias.

Uma sociedade revolucionária no TODO. Onde cada um é. Onde, numa leitura dialógica do mundo, a história colonial, reacionária, impositiva de uma cultura retrógada, opressora deste poder de ser e excluir, não tenha mais espaço, abrindo caminho para uma justa e coletiva transformação, com base no AMOR!





Escrita sem mistério


Para mim o escritor é um observador do mundo. Movido a detalhes dos fatos e dos atos. E, assim, os personagens se transformam em relatos próximos à sua vivência, ao seu olhar das diferenças, às semelhanças e às reflexões sobre tudo que lhe preocupa, deseja, tudo que aflora sentimentos e existência.

Escrever é um ato solitário com ressonância também no passado, algo escrito em sua mente, resultado de uma ruminação e compreensão no presente, liberto de uma ansiedade contida.

O escritor se desvenda em seu olhar crítico para tudo, para todos e para si mesmo. Ao esmiuçar detalhes, refletir sobre eles e dar espaços aos leitores para vivenciarem ou mesmo se encontrarem nas histórias singulares de cada um.

Escrever é um laço de percepção interna e externa, sem freios, sem limites, que dá vida às experiências perpetuadas nas palavras, nos pensamentos, nos olhares e ouvidos.

E os livros são perspectivas e leituras de vidas que se fecham em palavras.





Repetição de privilégios


Os negros-pobres, por falta de opção, são personagens que se eternizam na memória do sistema social econômico. Retrato descrito com profundos detalhes no livro de Jessé Sousa , “Elite do Atraso”, editora Leya, 2017.

Como se, de fato, o direito de exploração não pudesse ser revertido. A lei que aboliu a escravidão criou uma formalidade de direito, mas não libertou o negro da exclusão.

E esse martírio se reproduz, internalizando no ser excluído uma falsa liberdade de ir e vir, sem a ideia de como.

Como vencer as desigualdades dos meios para isso e competir de igual forma?

A fôrma do escravo moderno se perpetua com o sistema excludente. Vencer esse sistema, de forma civilizada, é a utopia que conforma o negro à sua aceitação como excluído.

Uma violência interna que não causa nenhum efeito aos olhos de uma elite individualista. A discriminação apenas seleciona os mais aptos, os nobres senhores com eternas chances familiares de ascensão.

Mas quando aflora a revolta daqueles que não se aceitam permanentemente explorados, sem chances de sobrevivência, externaliza-se, então, o ódio, a violência e as suas consequências, desajustes de uma sociedade doente.

A “Elite do Atraso” nos propicia diversas leituras do texto, na diversidade dos enfoques sociais, econômicos e históricos, abordados com lucidez pelo autor.





A Voz do Conto de Fadas


Quem primeiro contou, vivo está, ainda, na ponta do dedo do escritor. E quem recontou e não viu, acrescentou, diminuiu, ponderou e dividiu.

Por de trás dos contos de fadas, estão os olhos do escritor a espiarem a alma humana. Eles descortinam um universo em miniatura. E dão voz ao adulto e à criança em seus desdobramentos diários. Alimentam as histórias que lhe foram contadas, vivenciadas e transformadas por nossos tataravôs.

Com sutileza nos envolve com as mais diversas versões, traduções e adaptações. Nos contos que nos contavam as mais tristes e alegres histórias do humano na Terra. Na voz do contador que não tem tempo, nem lugar, fala a linguagem de todos os tempos e de todos os lugares. Dependendo de quem conta, para quem se conta e onde se conta.

Mas as histórias se repetem com a cor do lugar, com a data do tempo, com a ótica do contador. O tema é universal, o Homem, com suas bondades, maldades, em suas circunstâncias. Quem disser que é mentira não percebeu a fada (o escritor) tentando o tempo todo “transformar” o Homem. Essa é a mítica do conto de fada.

O homem, como fato, transformado em príncipe, rei, bicho, seres inanimados, atravessando o mundo das histórias simbólicas. O objeto do conto de fada é a vida em miniatura, desdobrando-se e perpetuando-se nos clássicos que atravessam gerações. Gerações que ouvem as histórias, lêem as histórias e navegam nos registros escritos das mais diversas interpretações. Gerações que aprendem a sonhar, acordar e, na mais infinita certeza, acredito, a se sentirem um dia um Homem melhor.

Os contos de fadas revelam o sentido do prazer e da realização desse prazer, através do poder realizar. É esse poder diante dos fatos históricos, políticos, sociais, econômicos, tanto faz fatos de uma aldeia ou de uma grande cidade.

Muitas vezes o conto fantasia a realidade, como se fácil fosse mudá-la, dependesse apenas do rei de coração bondoso, do rei vingativo, do príncipe apaixonado, a desejarem reparos no comportamento do seu interlocutor. Mas se assim não fosse, não seria contos de fadas.

O conto, como denúncia do comportamento antiético, é real. E retrata o contraditório do Homem diante da vida, em seu mundo individual e particular, ora se tornando fada, ora bruxa. Retrata pobres e ricos diante das suas conveniências, ameaças, injustiças e necessidades.

A fada do conto de fada é a denúncia sutil do comportamento do dia- a- dia. O homem fantasiado de bicho, seguindo o instinto de sobrevivência. Enquanto os bichos “inteligentes” negam o ético, o dever-ser, indicando o pior destino aos bichos travestidos de homem. Podemos observar o aludido na primorosa edição de capa dura dos “Contos dos Irmãos Grimm”, especialmente no intitulado “Os Músicos de Bremen”, editora Rocco, 2005.

Os donos do burro, do cachorro e do gato os descartam diante da sua atual inutilidade. O do galo, diante da sua necessidade. Do ato impensado, a fuga dos bichos. Da fuga, a formação da orquestra, o encontro com os ladrões de uma casa, com mesa farta. A posse, pelos bichos-músicos, da casa alheia, e a expulsão dos ladrões, com o arranhão do gato, a mordida do cachorro, o coice do burro e o cocorocó do galo.

Instalados e bem alimentados no circulo vicioso e viciado das circunstâncias, os quatro músicos de Bremen não deixaram mais o local. E, como disse o autor, “E quem contou a história por último ainda não acabou de contá-la.”

Bichos tornam as histórias mais palatáveis ao adulto, que se enxerga, mas não se identifica, e na criança despertam o lúdico, que, com sua natureza espontânea, cria elos com os mais amigos e os mais perversos, formando a sua memória e talvez traçando o seu destino. Destino que incorpora reis, rainhas, príncipes e princesas, o sonho de uma criança que o idealiza através dos personagens.





A Arte da Escrita


De repente olhei o retrato da moça e a achei alegre. Inocente, ela se disse, envergonhada. Quem sabe estava triste na sua falta de percepção.

A vida é assim, se faz caminhando, e a vergonha que sentimos faz parte da nossa vaidade. E assim falei para ela: escreva!

Contos, versos, ensaios, estão repletos de nós, das intenções que não são premeditadas, existem em nós. Em quantos nos fragmentamos, nos dividimos, na contraditória relação com o mundo e as suas diversidades?

Todos nós fazemos diariamente a nossa obra de arte, e a arte, como imagem, caminha com os nossos passos, para a fotografia que revelamos nas palavras escritas.

Falar do politicamente correto é como imprimir valores morais fugazes. Não permanentes. E quem tem autoridade para dizer o que é ou não certo para o mundo? O que importa é perguntar: o que é ético? E aí escrever todas as histórias, navegando em todos os mares, de todos os tempos, sem atravessar ninguém.

Muitas vezes é difícil enxergar o ético na infância, e da cegueira os livros nos marcam, até nos desvencilharmos deles!

Escrever para criança exige tintas diversas para o rico universo da criança. Esse é o primeiro passo. Os outros caminham com a criatividade, humor, olhar interativo, tristeza, literalidade. E tentar agradá-las com a arte mentirosa da ficção, aí está o mistério. E comecei a pensar: para que criança vou escrever? A que tenho dentro de mim? E esqueci meu olhar na infinidade de crianças ao meu redor, nas minhas leituras e observações diárias. E comecei a pensar nas tintas, tonalidades, performances, onde as palavras se encaixariam, e descobri que a emoção não tem fórmula!





Por que ler Machado de Assis na escola?


O livro, como matéria prima de consciência, alimenta, seduz, forma e não conforma.

Ler é um exercício de respiração, transpiração, terapia da alma, alimento e necessidade.

Da leitura de um texto de Machado pode se formar propósitos, intenções, despertar fantasias, acordar para os conflitos.

O poder da palavra é imenso, tanto para formarmos leitores, quanto para formarmos consciências.

A arte de Machado está no permanente diálogo dos seus narradores e seus leitores.

Arguto nas interrogações, suas tramas são preciosos veículos de análise do comportamento humano, metaforizado na ironia, humor e imagens.

Seus textos transcendem o espaço e tempo e simbolizam a ocasião e circunstâncias.

“A literatura é uma experiência de transcendência que diz respeito ao mundo real”, afirma Joel Rufino dos Santos.

Instrumento de deleite e reflexão, os contos de Machado, como objeto de estudo em sala de aula, possibilitam ao jovem o parâmetro no seu contexto de vida atual.

Um olho individual de cada jovem para ação e reação dos personagens, que geram o debate e a variante de opiniões e diferentes perspectivas, o conflito de ideias e o processo de socialização.