A Menina Que Engoliu o Sapo
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Poemas


Estação da Memória...


05.05.2022


A consciência
Delira no inverno da memória.
Agita-se como uma tartaruga
a perseguir
a nuvem...
Sucumbe ao lhe escapar o fio,
mas lhe desperta o verão da certeza,
Que chora o fragmento...
Sem luz...





Árvores Urbanas


05.05.2022


Árvores, em pontes,
Sobrepostas.

O indefinido
Rega o pó,
Que
Floresce mudo...

Pontes de cimento

Habitam
Carros frios,
Sem freios.

Desarvoram o Homem
Em estado líquido...
.
Sanatório de uma cidade...





Contradições


05.05.2022


Às vezes somos o Quark
Que não queremos enxergar.
Hipoteticamente imaginamos
O que negamos como real.
E o real se desmancha no nada
Que está no vazio
Olhando para nós...
O hipotético está na indefinição
Do todo que somos
E que não somos.
A luz nos restringe à escuridão
A escuridão nos acende
Hipoteticamente fomos um dia
O que pensamos ser...





Canto da Exclusão


05.05.2022


- Não, não vais dizer
Dormes na chuva!
- Sim, eu vou dizer
Vivo na lama...
E o vento me diz:
- Não sabes tu o prazer
E os dotes do destino?
Não te lamentes.
Vento, perverso, vento
-Não, não ouves o vento,
Não , não, te afogues no mar...





Vãs Políticas


05.05.2022


Política,
Onde escondes
Tua verdade
Mentirosa?
Nos olhos cegos
De quem não
Enxerga tua
Astúcia...?
E o tempo não
Se move...





Homem de Ferro


06.05.2022


Não me fales de um instante
Ele rompeu todos os laços
De ternura...
Revolução, golpe, guerras,
Horrores simbólicos
De um instante...
Movimenta-se,
Se esconde e volta...





Convite


06.03.2022


A vida não é
Um poema.
Real é a flor,
Cheiro, cor,
Doce é o sabor.
Mulher-Homem,
Homem-Mulher,
Criança-adulta,
Adulta-criança.
A vida soletra
Uma flor.
E o poema escreve
O amor!





Monstros


08.02.2022


Um olhar
Oceano vazio
De consciência
Evapora
Tortura
Exclusão...
Um congolês
Por quê?





Contingências do Esquecimento


08.02.2022


Vida? Consciência?
Onde há vida? Donde?
Nessa
Expressão?
Nesse
Olhar de busca?
De aflição?
Vida? Donde?
Nesse
Ponto de chegada?
De perdas?
Desgovernando
Sua independência?
Sua mente?





Esfera do Tempo


08.02.2022


Um olhar
Parado
No hoje
Incerto
Uma festa
Acontece
No deserto
Funesto
Razões temerosas
Razões insensatas
O tempo?
Senhor da razão...
Espera
O amanhã





Psicopatas da Ilusão


19.01.2022


Nuvens dispersas
Em canto de chuva
Um trem passa
Silencioso e cético
Fantasmas? Mistérios?
Os transeuntes gritam
Alagamentos
Mortos?
Psicopatas não autorizam
Em descanso...





Tempo e Raízes


19.01.2022


Canto
Um
Canto
De
Dor
Sem
Chão
Sem
Teto
Parente
Do
Desamor
Canto
Um
Canto
Escravo
Sem
Centavo
Prisioneiro
Cova
De
Desigualdade
Desencanto





Assim Tu És


19.01.2022


Tu quiseras ser
Uma mulher batida.
O que é ser
Uma mulher batida?
Sem nenhum
Pré-conceito
Te entregas ao
Léo sobrevivente
Sem nenhum
Trocado de vida
Corpo Teu!





Por Quê?


19.01.2022


Não fujas,
Elípticas surpresas
Circunavegam
O mundo.
Colhes a dor
Interroga-te.





Razões Pandêmicas


19.01.2022


A vida pergunta
Quem é você?
Quem sou eu?
Quem são eles?
Fogo de palha,
Todos nós!!!!!!!





Voz Surda


19.01.2022


Uma voz martela
Um coração sangra
Sangra de dor
Num chão incerto...
Órfão de mãe,
Sem pai,
Um menino vagueia
Como uma sombra
Sombra de um átomo
Pó do amanhã...





Vida Bruta


19.01.2022


O homem se esconde
Apitos, buzinas,
Pedidos, balas,
Bolas circenses,
Nos sinais se apagam
Rugas gravam
Afasia, indiferença,
Olhos sinalizam...
Duelo em vida...
Terror em sentença.





Solidão


06.12.2021


Mar revolto,
Tudo escuro
Nem uma voz...
Só,
Adormece,
Inconsciente.
Vazio... Existente?
Um barco à deriva.





Seres Tragicômicos


06.12.2021


O mar secou...
Pelas mãos selvagens
Do homem...
Morreu com o seu
Alimento.
Órfãos da vida,
Acotovelam-se.
E apagam!
Com fome...





Seu Rosto


06.12.2021


Desenho traçado
Do abandono
Respira a dor
Do incrédulo.
Véu
Da angústia
Mortal,
Do sorriso
De um filho,
De uma mulher.





Desejo


03.11.2021


O vislumbre
De um fio,
Um acorde
No espaço
Canto de vida.
Tempo fantástico.
Sonho real!





Tempo e Forma


03.11.2021


Verso interior grita a métrica,
Soluça e ri o ritmo do
sentir.
E pacientemente o poeta dita
a forma
E se debruça
sobre.





Ventavírus


03.11.2021


Denso tempo
De outrora,
Pensará
Algum dia,
Quem sabe,
Amanhã...
???????





Fantasia De Um Inseto


03.11.2021


A Inércia
Viralizou
O mundo,
Sem vírgula,
Ponto,
Dois pontos.
Uma
Interrogação
No deserto
De dúvidas!





Vazio de um Lugar


01.10.2021


Sim, existe
uma borboleta
no recinto.
Pousa na cadeira
de balanço,
Vazia...
Me abraça
com os olhos.
Respiro,
Cai uma lágrima!
Mãe???





Uma Cidade


01.10.2021


Olhas para o lado e não vês.
Na contramão atropelas crianças,
Anciãos...
A bicicleta corre alheia,
E tu, sozinho em teu delírio,
Solitário, egoísta...
Sem olhos, sem ouvidos,
Dono da liberdade!
Cenas multiplicadas
Numa cidade anestesiada...
Inclusiva?
Muros, grades desenham
O cotidiano de defesa.
Enquanto balas silenciam vozes
No peito de um coração inerte!





Coisas da Vida


06.09.2021


Olho no ôlho do domingo
E choro.
Choro o desafio de desafiar
O domingo,
O domingo escancara a janela
Brincando de ausência,
Gargalha...
No quarto vazio, a moça grita
Com o leito de morte...





Literatura, a Arte do Vazio em Construção


06.09.2021


Espelho do corpo e do cérebro de quem reflete. A arte de escrever e reescrever
as incógnitas do estar no mundo.
O mistério da arte do não dizer.
O dizer da pergunta de quem se descobre
No mistério da arte do não dizer.
E o escritor da folha em branco
Preenche as lacunas do leitor saciado,
Pelas entrelinhas, vazios e espaços.
De um autor Livre de amarras e propósitos
Que navega ao encontro das dúvidas,
Pois as certezas são finitas
Na viagem do cotidiano,
O eterno princípio.





Palavras


06.09.2021


Fotografam o momento, cravam
Riscos em pedras,
Delineiam em rascunhos,
Que não se podem evitar...
Palavras são rascunhos,
Pedras que ainda não se formaram...
Círculos aflitos de dúvidas,
Silêncio interior.





Perfil Insano


03.08.2021


Dote de uma herança
Venenosa...
Réptil de uma história
Lunática...
Em clima de
Trovão, furacão,
Terremoto,
Vulcão permanente!





Ópera do Desespero


03.08.2021


O monstro veste
A toga e
Dança a morte
Da justiça...
Maquiavélico,
Trama, inventa,
Condena...
E hora se
Esconde...
Será louco?
Um crocodilo doente!





Saudade


03.08.2021


Saudade
É um lapso
De ausência
Que esconde
Sua presença
Neste coração
Tão seu.
Eu disse:
A distância
Não consola
Esse amor,
É minha mola
E me faz
Enorme bem.
Quem sabe,
Eu aprenda,
Com a saudade,
Encontrar
Algum detalhe
Que o coração
Não tem!





O Absurdo


03.08.2021


Onde está
Que não vê
O avanço do mar?
A areia dispersa
O pó do planeta...
Sim, sua fé anticiência
Condena-nos ao abismo...
Onde? Diga,
Animal predatório!





Ouvidos Moucos


06.07.2021


A arte de falar por vezes se expressa
Calada
Ouve o silêncio de um lábio
Trêmulo
E indaga do vazio,
Exausta.
Sem voz as palavras se evaporam
Vivas.
Falta-lhes o ar
Às tragédias, comédias e sofrimentos.
E lhes resta apenas a imagem congelada
De uma boca,
Monólogo de uma representação.





Sono Acordado


06.07.2021


Voraz.
Anseios,
Angustias,
Medo.
Da vida?
Ou
Da morte?
Silêncio...





Sonhos e Sonhos


06.07.2021


Onde navega o sonho
De mudança
A onda inclina...
E
Sorri da ousadia...

Onde navega o sonho
A esperança
Espera... Espera...
E
Soluça

Brava onda surda
Soterra as lágrimas
Onde navega o sonho
E
?





Sombras...


06.07.2021


Quem sou eu que se fez
No silêncio da angústia
Desequilíbrio de perda
Encanto do esquecimento...
O silêncio é como a chama
Que incendeia a voz muda...
Reverencia a dor do horizonte
Quase sombrio... disperso...
Sou quem sou e não devia...
Mas quem deve não é...
Quem sabe parto o eu que
Fantasia?
E livro-me do fantasma
Que me assombra...





Sutilezas do Poeta


06.07.2021


O poeta é cérebro sem dono
Dono de coisas comuns
Com toque incomum
Flor em imaginário
Criador de sentimentos
Meio profeta
Profeta o meio
Cientista às avessas
Busca sem concluir
As descobertas
Canta o real em ficção
Intui e pensa
Sente e imagina





O Que Diz o Poeta?


06.07.2021


Arquiteto da palavra,
Brinca com a simetria

E briga.

Poço de sentimento aflorado
Nuvem de sentimento guardado

O Poeta vive.

O Poço, a nuvem, a nuvem, o poço.
Fala a verdade que se diz mentira
Cala a mentira que se faz verdade

O Poeta rima.

Ritma o compasso do orgânico
Fuzila “verdades” com harmonia

E pensa

O poeta pensa o tempo inexistente
Agoniza o tempo de espera
E circula.





O Duo da Serpente


06.07.2021


A terra geme no silêncio arguto
E chora o tempo da inércia
Seus veios racham secos
O desalento, de quem dorme o sono...
Da preguiça
Do conforto
Da volúpia
E se esconde na serpente
Que a devora...





Caminhos ou Contornos


06.07.2021


Fantasma de mundo
Cada um em sua nau, no horizonte...
Uns na vertical...
Outros no fundo...
Completa incógnita cega de um
Esteio sem pai...
Amparo sem mãe...
Poesia sem verso.
E, um pedaço de figa...
Meio pedaço, nenhum mais...





Viagem...


06.07.2021


Os passos acompanhavam o silêncio
De um corpo cansado,
Que se despedia...
O pé direito dançava no sapato
Como se a mulher se desequilibrasse
Em dia de terror... Consciente.

O caminho se afunilava
Num céu claro, antes turbulento...
Só se ouvia a voz discordante
De um filho, diante das coroas sobrepostas.
As pétalas jaziam no hemisfério da vida
Que se segue... A morte!





Esse Mundo...


18.06.2021


A Chico Mendes

Esse mundo navega
Em desvios, não como os rios;
Esse mundo desaba
Em choro, violentando as matas;
Esse mundo conspira
Em armas, silenciando as florestas;
Esse mundo governa
Em desvarios, sentenciando a Terra;
Esse mundo se compraz,
Autoritário, assassinando o camponês;
Ai! Esse mundo decadente!
De vermes ou será de homens?

(publicado na antologia Nova Poesia Brasileira, Shogun Arte, 1989)





Cores...


18.06.2021


Terra azul...
Ai! Essa atmosfera
Colorindo o incolorível,
Essa atmosfera enfeitando
O escuro.
Ó céus! Tão nebuloso e negro
Como a minha alma.

(publicado na antologia Literatura Brasileira, Shogun Arte, 1989)





Saturno


18.06.2021


Parecia uma ninfa,
Reinava em torno dos anéis.
Tantos anéis sem casamento, perguntavam?
Tantos mistérios e promessas infiéis?
Sensual, aguçava, ao sabor do vento,
O senso de humor de seus fiéis,
Com o corpo nu, todo manchado,
Excitava os furacões e os ventos,
- Era ninfa, perguntavam?
Meus olhos dormentes, respondiam,
Presos àquelas manchas negras:
-Uma ninfa no céu? Os anjos não permitem...
-Era mulher? Confidenciavam.
-Pobre delas! Era saturno!

(publicado na antologia Poetas Brasileiros de Hoje, Shogun Arte, 1989)





Negações Imortais


25.05.2021


Danças o retorno
De vidas silenciadas
À sombra, o riso desprezível...
Cruzes espalhadas...
Deslizas os pés em delírios
Genocidas...
Torturas o alheio
Em círculo de prazer
E te inocentas...
Do e no mistério de viver.





Luzes da Hipocrisia


25.05.2021


O horizonte canta
O vazio desmascarado,
Frio, premeditado...
Chora um órfão desesperado.
Trilha o abismo, em lágrimas
E ouve um sonoro fantasma,
Cínico fantasma
Que soletra... coi-ta-do!
Colhe pedras, só... somente,
Infinitamente só!





Quintanilhas: poesia e tempo


26.04.2021


Poeta maior... Poeta... Menor...
O que faz o poeta sem alma...
Sem desassossego?
Sem as asas dos anjos
E a simplicidade das profundezas?
O que faz o Poeta sem as reticências
Que não respondem, perguntam?
Semeiam vozes aos olhos alheios
Que se alastram.
Poetas não morrem.
Plantam versos
Que se abrem em naus!





Sombras do Amanhã


12.04.2021


Um pó no canto
Uma luz no sótão
Um refrão de dores
Silêncio.
Os sinos tocam
O que será?
Um funeral de corpos.
Relíquias pandêmicas,
Choram os risos
De um fantasma,
Abominável, de pedra.





Palavras e Palavras Surdas


22.03.2021


Palavras sobrevoam sentimentos
Frias na indiferença
Reveladas na mágoa
Resistentes na vaidade
Melancólicas na perda

Palavras silenciosas
Palavras silenciadas

Palavras...

Versam, dispersam...
Ausência, presença...
Sínteses verbais...
Verbo que não ouve
Ouvido que verbera

Cantam as palavras
Contam as palavras

Refrãos de um dito
Refúgios do não dito
Solidão.





Louvação ao alimento


15.01.2021


Essas moscas
Pousam acesas, essas moscas.
Livres, aspiram ao doce acre
Perfume da vida.
Pousam firmes no doce frio
Alimento.
Essas moscas
Choram a fome dos desvalidos
E voam inspiradas, essas moscas.
E olham, críticas, os anestesiados.
E voam, voam, voam
E rezam.





Sopro Da Eternidade


05.01.2021


A noite se esconde
Atrás da vela
Que se apaga/

Na calada do tempo
Vento

Tempo de escuridão
Vento forte

Vela uma vela
A noite se esconde,
A vela se apaga.

Posta a chama,
Que se esparge
Venta.

TEMPO?

E o vento sorri discreto,
Cumprimenta a noite/

A flor nasce no lago da vida
Big Bang?
Dorme nos braços do Infinito.





“A” e “O”


07.12.2020


A
Solidão briga
Intriga
Soluça
Pede
Chora
Ouve
Espera
A
Solidão agradece
Encontra
Lembra
Acorda
Pergunta
Acredita
E
Adormece

A
Visita espreita
Corre
Senta
Observa
Aceita
A
Visita fala
Ouve
Finge
Alegra
Emudece
E
Despede-se

A
Inveja mente
Deturpa
Vibra
Ameaça
E
Chora
A
Inveja chega
Intriga
Manipula
Enraivece-se
E
Morre

O
Destino devolve
Briga
Desfaz
Faz
Pergunta
Recusa
A
Inércia

O
Beijo doa
Finge
Protege
E
Embriaga
O
Beijo
Emociona
Despede
Sente
E
Imagina

O
Tatu se esconde
Cava
Sussurra
Pensa
E
Geme.

O
Tatu se encolhe
Permite
Chora
E
Grita

O
Tatu se surpreende
Acorda
Mira
E
Existe.

A
Desconfiança
Deforma
Devora
Conforma
E
Aliena
A
Desconfiança
Enquadra
Desvia
E
Transforma

O
Silêncio
Pergunta
Respira
Acorda
Acredita
E
Chora
O
Silêncio
Apavora
Treme
Conforma
E
Morre

O
Dia
Recolhe
A
Chama
Do
Azar
E
Investe
Na
Vida.

O
Sofrimento
Chora
O
Veneno
Da Apatia.

A
Indiferença
Corrói
O
Fio
Da
Existência

O
Amor
Dribla
O
Desespero

O
Jovem
Atravessa
O
Caminho
A
Bengala
Cai
...
O
Velho
Para
E
Chora

O
Mendigo
Dorme
O
Sono
Do
Abandono

A
Trilha
Marca
Caminha
Apaga
Ouve
E
Escuta
Passos?

O
Tempo
Alcança
A
Trilha
Ou
A
Trilha
Ilude
O
Tempo?





Momentos


05.10.2020


Espelho cioso de uma vida
Fantasmas de fogo se apagando
Máscaras obscuras tão longínquas
Rotina rotineira, vida?
Sabatina fria, momentos são momentos,
O cerne é a alma...
Sintonias de um estado
Onde sou o que não sou
Serei eu o que fui?
Vida dual!

POESIA E LIBERDADE. Melhores trabalhos do I CONCURSO NACIONAL DE POESIAS FERNANDO PESSOA. Edições Maria, 1989





Marte


05.10.2020


Você me lembra um planeta incendiado,
Um esperma de fogo explodindo gases
Como um demônio enfurecido, cantando ninfas,
Em suas cósmicas seduções.
Você me lembra um rubi despido,
Penetrando quente em diversas posições,
Seduzindo a olho nu os corações
Com sensações vermelhas,
Ao refletir o brilho aceso, e apagar a luz
No calor do brilho solar.

MOMENTOS ERÓTICOS, JOTANESI EDIÇÕES, 1989





Canção De Dor


02.09.2020


O barco navegava
Ao sabor da morte

A criança tocava
Ao piano, em ritmo
De jazz.

Órfão do silêncio
Deslizava as mãos,
Enlouquecidas.

Em balada triste
Teclava o desespero,
O abandono.

Vírus compassado
Cruel...





Silêncio dos Dias


25.08.2020


Os fantasmas adoecem!
Mentes insanas
Atormentam o medo,
A insegurança,
Semeiam o terror.

E a vida corre, corre,
Não alcança a luz...
Sangra o desassossego.

Sombras devastam
Pensamentos,
Desequilibram o ser,
O viver e perguntam:
Vida? Minha? Tua? Nossa...

Perguntam... Perguntam...
E acordam o agora!
O tempo do amanhã!





Penúria


25.08.2020


O vento dorme
Em manancial de
Dejetos.

A moça, mãos vazias,
Lábios secos,
Perambula
Ao léu da sorte.

E o vento ouve:
- Sede! Sede!
A moça grita!
E busca o acaso...





Viramundo (Virusmundo)


10.04.2020


O dia não acorda
Tudo escuro
O amanhã, parece,
Não chega...
Tempo instável
Humores retraídos
O mistério contamina
O caminho...
Dos nobres, pobres,
Das etnias...
A natureza se cala,
Exausta...
De ouvir o silêncio!





Planeta Viral


03.08.2020


Vida
Paraiso em chamas
O Homem incendeia
O lugar de vida.

E a vida chora...

Chora em mundo
Ausente...
Transeunte
Da inconsciência.

Vida?





Tensões no Morro


30.01.2020


Olhos opacos
nas vertentes
do morro.
O povo, em
quadrados,
pede socorro.
Sonha acordado
com o alimento.
Vem a fome
E o vento....
Chove tensões,
Chove plumas,
Chove balas,
Balangandãs,
E confetes.
Chove
a tempestade,
em mar
de lama,
Chove o verme
a habitar
o ventre.
Chove
na cela de angústia,
a carestia
o medo
do justiceiro.
Chove promessas
no dia 15,
é janeiro,
Chove brisas.
E um sorriso
incongruente
dos ingênuos
e dos crentes...
Chove
o parâmetro desigual,
na sobrevida.
chove
o desalento,
chove o protesto
na visão telescópica
de quem
está atento.





Surreal


27.12.2019


Monstro
Monstros
Quatro faces
Semente\Fruto
Veias do absurdo
Funeral do futuro!
Fantasmas...
Acaso? Histórico!





Campo minado...


07.10.2019


O mundo me forja satisfeito.
Que pedaço de mundo me dá
A cor do suspiro?
Ou me imagina cético
Imaginando o vazio?

O mundo sou eu, és tu, somos nós,
Em quais desvios nos encontramos
Sem as hipocrisias das resistências
E o mito em que não há complacências?

A dor sucumbe ao olhar impiedoso
Os lábios tremem de terror,
Guerras silenciosas
Uma criança grita,
Em meio à multidão esfacelada





Observatório da História


06.05.2019


Tempo...
Vencedor da razão?
Hospício da condenação?
Tempo! Tempo?
De fatos transloucados...
Desvario do vazio,
Juiz do absurdo...
Afirmação da incógnita!...





O Fantasma do Absurdo


04.02.2019


Um lugar
Onde a vida
Espelha o ar
Do minério...
Vida soterrada
Em lama.
E o silencio
Sucumbe
Ao terror
Da ganância:
Sem freios,
Sem brios,
Sombra e sentença
Do caos e do Vazio...
Nenhuma voz...





Espaço Frio


09.01.2019


Sem risos, nem sorrisos,
Rua?
Quadrado
Círculo,
Um fio.
Caminho?
Trilho
Coletivo?
Não,
Nenhum vínculo.
Fiapo de gente
Em
Marquise
Como um inseto.
Um mar
De
Solidão.





Amor a Dois


15.09.2018


Amor parte e comparte
Dobra e desdobra
Presenteia e festeja
Compromete e encara
Diz e ouve,
Ouve e diz,
Fotografa o coração:
Ri ou chora
Vibra!
Acorda,
Faz dormir,
Não tem tempo,
Não tem vento,
Agoniza na dúvida,
Involuntária,
Da perda.
Está contido
Na paixão
Forte-tranquila,
Prazerosa,
Que o tempo rega,
Sofregamente (diuturnamente).
Amor:
- Aprendiz maior-
De todo sentimento
Sobrepõe ao ódio,
Ressentimentos:
Incapazes
Vazios
Atrozes...





Alegorias do Destino


15.09.2018


Falar da morte é viver.
Os instantes são como ondas,
Perdem-se, como pedras,
Arrebatadas em rios...

É tudo tão inefável,
Escapam às nossas percepções,
Às vezes injustas, outras
O senso dissimula as razões...

Estamos sempre esperando
O trem que não passou...
Ou, atrasados, o perdemos.

Muitos são os disfarces
E as fantasias do eu, em nós;
Somos, também, o destino,
De nós mesmos...

Os acidentes são histórias fortuitas
À margem dos cenários que construímos...





Desassossego de um Poeta


05.09.2018


O diabo é a fôrma
Da fôrma e não da
Forma...
Da fôrma em forma
De texto
Que enjaula...

O diabo é a teoria
Da fôrma do enigma
Estuda a alma...
E não a descobre...

O diabo não são
As ambiguidades
Da Coisa.

O diabo não é o travesti do texto...
...
São os novos endereços
Da coisa sem marca...

Os enigmas se tornam o poente
Do Nada...

Coisa sem movimento...
Sem respiração... Não Coisa...
(Como se o dono não existisse)

O diabo é o duo dono da Coisa





Traços de Consciência


02.04.2018


Aqui só busco a vida
E ela não lhe acha

O tempo é o ponto de partida
Ele, ladrão da lucidez,
Demônio das lembranças.

Busco olhar no seu olho a vida E ele me olha como um cego
Duas contas de pedra A mirarem o vazio Fazem do interlocutor um nada
Do caminho, O caminho de volta; Da dor, a sua escolta





Natimorto


02.04.2018


O medo alcança a coragem
Nas esquinas da vida...
Medo?
E assombra na busca de
Um porto seguro...
E as flores enterram vozes.
Vozes, vozes, vozes...
Espasmos e silêncio
Becos tiranos de tiroteios.
Esquinas? Aqui não há!





Dores da Velhice


02.04.2018


Eu não perdi o mundo,
Desencontrei a vida...
O silencio da sua voz
Fala de ausência
Quem sabe da inexistência
Presente, de um corpo apenas...
Vida? Um arquivo da memória
A esperar o tempo de partida...





O Que Seria do Tempo


22.01.2018


O que seria do tempo
Agora?

Há tempo sem tempo
Tempo sem enigmas
Enigmas sem tempo.
O tempo tem pressa
O tempo espera
O enigmático
Criador do tempo.

O que faria do tempo
Sem essa foto?





Loucuras


22.01.2018


Loucas são as razões
Que nos fazem loucos.

São as mentiras desnudas
Sem brios,
Vestidas de verdades...

Loucos são os demônios
Travestidos de anjos
Envergonhados

Loucos são os “sadios”,
Torturadores perdoados
Que se fazem santos...

Loucos somos nós.
Que deixamos...





Caem as Máscaras


21.11.2017


Doenças, doentes
Doentes imaginários?
Tumores da alma
Que batem,batem,batem...

Riem o riso falso,
Maquiavélico riso
De significações...

Falsos doentes travestidos
De solidão, angústia,
Quem sabe, inveja.

Sorrisos em farsa,
Carência,
Traídos pelo gesto...
Em forte emoção

E vestem a expressão
Que desnuda
O SER
No ímpeto da palavra.





A Arte Pela Arte


20.10.2017


Onde está o buraco do lume?
Será a vida um quadrado que
se perfaz nas mesmices das
repetições “verdadeiras”?
Será a arte a discórdia que
não se explica? Saboreia a vida,
o Belo, o fugaz
no centro giratório do prazer ?
Respirando imagens, palavras,
performances, textos? Em flutuação
Subjetiva? A arte, mero espectador de si?





Fantasmas...


20.09.2017


Sei que não sou fantasma de mim
Insanidades do corpo
São como sombras sobrepostas
Tocando os ouvidos, burilando medo...

Os fantasmas são como sombras sobrepostas
Marcham em marcha ré, caminhando o descaminho

Vozes que assustam e açulam dúvidas...
Será onde choram, será que choram, ou não choram?
O frágil pranto da incerteza ou o pranto da solidão
A caminhar o descaminho sem volta

Fantasmas lutam como feras agoniadas
Choram o pranto da finitude das células
No corpo que me veste a alma de tédio
E me abraça doente.

Sei que não sou fantasma de mim
Eu o afasto com a ironia dos deuses:
E digo para ele, atormentada,
O tempo não tem pressa...





Desassossego de um Poeta


11.09.2017


O diabo é a fôrma
Da fôrma e não da
Forma...
Da fôrma em forma
De texto
Que enjaula...

O diabo é a teoria
Da fôrma do enigma
Estuda a alma...
E não a descobre...

O diabo não são
As ambiguidades
Da Coisa.

O diabo não é o travesti do texto...
...
São os novos endereços
Da coisa sem marca...

Os enigmas se tornam o poente
Do Nada...


Coisa sem movimento...
Sem respiração... Não Coisa...
(Como se o dono não existisse)

O diabo é o duo dono da Coisa





A Arte do Silêncio


29.05.2017


A arte de falar por vezes escapa,
Como se faltasse ar aos sofrimentos,
Tragédias, comicidades...
Berço inconteste do gesto tímido,
Teatro mudo de frustrações.
Rugas, de ouvinte, sem voz...
A inquietar motivos e desejos...





Círculos Diários


08.04.2017


O lusco fusco semeia olhares de aranha
Hora sombria, aflita, instável...
Ando na faixa desequilibrada!
Os pássaros já não cantam,
Hora sombria de silêncio...
E o amanhã despertará das cinzas inertes
O círculo se abre em eternos círculos...
E os pássaros cantam em outros cenários.





Um Dia Que Queria Esquecer


Para minha mãe (10.06.2016)


Respiro?
O vazio
De um quarto,
De uma cama.
O cobertor Jogado
A escuridão,
O silêncio.
Silêncio mudo
De uma boca
Que já não falava,
Ouvia apenas
Em sua expressão.
Agora agoniza
Em sua respiração cansada...
Choro a tensão
De não ter certeza
De nada...
Em te ver debruçada
Diante
De um impasse.





Apenas um sono...


Aos queridos Paulo e Licínia


Vôo com os teus pés
E
Atravesso o mundo
Acaricio cada dia
E
Te acordo
De
Volta
Aos 40 anos.





Afogamento


Publicada no livro A Magia da Palavra - Contos, Ensaios e Poemas

Sensações enlouqueciam-no nas espumas...

Seu corpo leve bailava nas ondas
como uma garrafa vazia, tragada pela corrente.

Sua boca borbulhava fria, tentando dialogar com
a morte...

Entre confidências e medos, seu corpo aflorava e
submergia
Seus braços trêmulos, como dois remos,
navegavam contra as areias.

Seu sangue cristalizava-se, correndo à margem
de suas veias...

Fracionavam-se todos os seus sentidos
Quando, num rasante vislumbre, o sinal da sorte:
voava nas asas de uma borboleta.





Festim dos Céus


Publicada no livro A Magia da Palavra - Contos, Ensaios e Poemas

Passarei voando
sem corpo,
como uma mariposa
célere.
Sem peso,
vou como um anjo
encontrar-me
com os deuses do Universo.
Confessar-me às almas
as incertezas vividas
como matéria.
Os anjos me ouvirão
calados
e me chamarão
ao festim dos céus.
Ouvindo o canto das estrelas,
danço como um ás,
pisando nos fantasmas
da Terra.