A Menina Que Engoliu o Sapo
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Resenhas



As Três Marias


Raquel de Queirós, Abril Cultural, 1982
Resenha por Dilma Bittencourt

Marcas de um Internato

Em AS TRÊS MARIAS, Rachel de Queirós revela a vida em um internato feminino católico, onde três e demais estudantes se encontram formatadas por um autoritarismo preconceituoso, elitista, deformador do direito do livre pensar, de crer, de agir, de sentir e se perguntar.

O que faço nesse ambiente austero, onde o pecado é o drama do mal, sem a oportunidade de saber o que, afinal, é o mal e o bem?

Essa relação traumática, desvendadas em famílias não estruturadas, leva aos desfechos de casamentos infelizes das personagens jovens, sem maturidade para desfrutar e entender a realidade do seu momento.

Nítida fica a sobrevivência da personagem-símbolo, com a perda da mãe, ainda criança, com o infinito horror à existência, desmotivada, carente, deprimida ao renunciar ao seu direito de amar. Insegura ao se sentir enganada e desconfiada com suas escolhas.

Um romance em que as personagens convivem com suas dúvidas, incertezas, necessidades de afeto e encontram muros e pedras diante de si. Rico nas reações e narrativas de uma época em que as mulheres olhavam a vida, prisioneiras de ideias pré- estabelecidas, para não serem julgadas.





Xadrez, truco e outras guerras


Coleção Plenos Pecados /IRA
José Roberto Torero, Objetiva, 1998.

Resenha por Dilma Bittencourt

Horrores da Guerra
O que pensar de tamanha insanidade: a guerra? Podemos compartilhar com o humor, sátira, sutilezas, friezas, ironia, ira, negação da ira, no romance de José Roberto Torero!

O protagonismo da guerra, a hierarquia do exército, as imperiais decisões do rei e sua manutenção no trono, e muito mais, “glórias”, medalhas, alcance de postos, aumento de soldos!

Uma narrativa preciosa para entender tamanho despropósito, uma tempestade de decisões insensatas, em busca de poder, propriedade, vaidades, egos, egocentrismo. Uma oportunidade de se desnudar o vil comportamento de cada personagem envolvido!

O arrependimento de atitudes, a culpa como objeto de se justificar com a mentira da generosidade, esquecida em segundos, pelo teor de si e para si.

A ira do inimigo se transforma nos projetos de destruição e eliminação da forma mais cruel! E que fazem os civis inocentes dos objetivos dos poderosos, da luta enfeitada com o “nacionalismo” e com a coragem?

Mortos e trucidados, com direito apenas ao silêncio!





POR UM TRIZ: Crônicas Sobre a Vida em Tempo de Pandemia


BEATRIZ HERKENHOFF, ED. DA AUTORA, 2021.
ILUSTRAÇÕES: HELOISA HERKENHOFF

Resenha por Dilma Bittencourt

Sombras e Luzes Pandêmicas

POR UM TRIZ, crônicas de Beatriz Herkenhoff, um olhar profundo, sensível, intenso, individual e coletivo para o cotidiano social-político-econômico, em tempos “normais” e pandêmicos.

Com ilustrações de Heloisa Herkenhoff, uma pintura abstrata, refletida em cada capítulo, reflexo de um sentimento, quem sabe, de fragmentos humanos e desumanos?

Crônicas reflexivas. Um rodamoinho no interior de cada leitor. Um olhar generoso à existência. Traça um perfil de humanidade para uma passagem do Homem pela Terra.

Em circunstâncias, do dia a dia consigo e com o outro. Entre amigos, familiares, anônimos, necessitados de afeto e meios para sua sobrevivência.

Um foco importante nesse momento pandêmico, quando as evidências de nossas sombras e luzes se tornam mais nítidas para si e para o coletivo.

Uma busca a caminhos menos tortuosos nesses instantes de incertezas e medos. Com foco na solidariedade e desejo de justiça.

Desenha um ponto de interrogação no coração e cérebro do leitor, para sua resposta interior!

Com o seu tom de inclusão, as crônicas falam também das mulheres, negros e deficientes. E, com o olhar de esperança, fotografa Salvador, com sua cultura afro, gastronomia, museus, música, relíquias históricas, um convite a uma visita pós-pandemia!





Senhora


José de Alencar, L&PM, 2010.
Resenha por Dilma Bittencourt

Interrrogando o Amor

SENHORA, de José de Alencar, romance de época, retrato de uma sociedade vazia, realista em sua hipocrisia ao mercado. Casamentos por contrato, com lucros auferidos.

O ser e o seu valor transformado em objeto, onde tudo se compra, até o “amor”.

Relato de histórias verdadeiras, onde o escritor revela o drama psicológico de Aurélia, a senhora, não de si, mas da fragilidade da decepção do amor desinteressado.

Um amor onde a necessidade não justifica a troca de parceiro por valor.

Seixas, a idealização de sua alma. O seu contrário. Homem deslumbrado, com os salões da nobreza, roupas finas de marca e visibilidade diante de uma sociedade fútil. Pobre, com disfarce de rico, empenhando o sacrifício da mãe e das irmãs.

Rompe sua relação com Aurélia, consciente com os contos de réis que poderia auferir. Sem imaginar o destino da moça pobre Aurélia, herdeira de uma grande fortuna, que nunca sonhara. E que recusara, por ele, o amor de um homem rico, por acreditar no amor.

Ao final, resolve brincar com os sentimentos de Seixas. Já órfão, de pai e mãe, trama o seu casamento, através de contrato de negócio, por cem contos de réis. O seu tutor, um larápio condutor da façanha, negocia com Seixas sem revelar a identidade de Aurélia.

Um teatro dramático de representação se insere com a descoberta. Uma relação que recomeça recheada de ódio, raiva, ironia, num jogo de reações adversas, de desprezo, com a incerteza dos dias que viriam.

Seria o contrato de casamento a compra da primavera de seus dias? Simples humilhação ao parceiro? Vingança? Ou amor masoquista?

E a pergunta se constrói nas juras de amor eterno ao parceiro e o testamento, junto ao contrato de casamento, tornando-o herdeiro universal.

O leitor, com tantos senões, explicações, arrependimentos, desculpas (verdadeiras?), abre os olhos, reflete e imagina!





Ratos e Homens


John Steinbeck, L&PM, 2005.
Resenha por Dilma Bittencourt

Escravagismo

Ao falar da condição humana, em “Ratos e Homens”, na falta de dignidade do trabalho, por uma mísera moradia, um prato de comida e alguns trocados, o autor John Steinbeck conta a história da desumana utilização do ser, sem eira, nem beira, sem família, com apenas um sonho, se tornar independente desse cativeiro.

Seja branco, seja negro, a elite escravocrata não perdoa, explora. Mas o personagem negro, alijado pela cor, condenado ao trabalho solitário, fotografa o desespero de sua exclusão até pelo excluído e retrata o mundo cruel em que se vive.

Ao final, os sonhos dos dois amigos, George e Lennie, de ter o seu pedaço de terra, juntos sem solidão, se evaporam na tragédia de um assassinato.

Um clássico com a originalidade da linguagem, uma leitura agradável em sua concisão.





Risíveis Amores


Milan Kundera, Editora Nova Fronteira, 20ª edição, 1985
Resenha por Dilma Bittencourt

Interrogação

Por que as mulheres seriam um ponto de interrogação em “Amores Risíveis”, de Milan Kundera? Ou seriam os homens a interrogação em sua ilações, nos sete contos deste autor?

Um livro para se deliciar com o retrato contraditório do ser humano, em seu espelho habitual de comportamentos diversos diante de si.

O que faz Martim, o personagem central do primeiro conto, se tornar tão vaidoso por suas abordagens às mulheres e tão “amoroso”, em suas mentiras, com sua mulher?

O livro aborda as artimanhas do ser humano para alcançar os seus objetivos, para contornar as ciladas convenientes. Trata a prostituição como objeto de desejo e de repulsa.

Um ensaio psicológico para as reações de afeto, ódio, carência, falsa moral, princípios e ética. O homem fantasiando o real para negar a sua falta de princípios.

Personagens inseguros, autorreferentes, utilitários e de falsos amores.

Tão rico e diversificado os personagens que não caberia a interrogação individual de cada fato e cada ato, nos profundos e reflexivos sete contos.

Porém, com uma linguagem concisa e direta, desperta no leitor a curiosidade para o próximo acontecimento!





Casa de Bonecas


Henrik Ibsen, editor Victor Civita, 1983
Resenha por Dilma Bittencourt

O Despertar de Uma Mulher

Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, drama escrito em peça teatral do século XIX, retrata o perfil da mulher, em uma sociedade formatada para colocá-la como um bibelô a ser posto e disposto ao bel prazer, inicialmente do pai e posteriormente do marido.

Um tempo em que a mulher, para pedir empréstimo, dependia da autorização do marido. E tudo se desenrola através dessa dependência.

Nora, a protagonista desse sofrimento, só descobre a farsa de sua relação matrimonial quando precisa falsificar a assinatura do pai em uma nota promissória, para contrair um empréstimo com a finalidade de salvar a vida do marido. E não querer alarmá-lo com sua doença!

E, consciente do estado de saúde do pai, morto meses depois, assumiu o seu ato, entendendo que não cometia nenhuma ilegalidade, pois, economizando consigo, pagaria o empréstimo, sem prejuízo a ninguém.

Descoberta a fraude pelo marido, em carta endereçada pelo financiador do empréstimo por motivos de pressão para galgar posição no banco em que o esposo de Nora dirigia, abriu-se o espaço para o desfecho da trama.

Naquele momento, Nora conheceu o homem com quem se casou. Que a humilhou com o seu falso moralismo, colocando-a em posição de uma mulher insignificante, que precisaria ser educada.

Despertou na mulher a interrogação: quem sou? O que fizeram de mim? E abriu a janela da consciência, do seu dever consigo mesma, esquecendo que foi mãe e esposa!





Contos de Amor e Ciúme


Machado De Assis, Editora Rocco, 2008.
Resenha Por Dilma Bittencourt

Infortúnios De Um “casamento”

Segredo de Augusta, conto de Machado de Assis, publicado em 1868 no Jornal das Famílias e ora editado em CONTOS DE AMOR E CIÚMES, organização de Gustavo Bernardo.

Uma narrativa contundente na exposição de atos e fatos que incriminam a relação familiar egoística, interesseira, despropositada, de um casamento com nada em comum, entre Augusta e Vasconcelos.

Seria o casamento apenas a coabitação em um lugar, de quase nenhum diálogo, encontro e compartilhamento de ideias?

Ideias só compartilhadas para solucionar interesses financeiros da família? Casamento da filha por razões de dote? E a própria sustentação da família arruinada financeiramente?

Filha que rechaça a possibilidade de se casar, observadora de um pai e marido ausente e de uma mãe narcisa, vaidosa, com o único prazer e desfrute de sua beleza, a desfilar para os amigos, em festas e noites de canto.

Narcisa, a só olhar para si, com os requintes e luxos de modelos e vestidos, sem enxergar Adelaide, filha, que se apega ao tio para afagar as tristezas dos destemperos de uma mãe egocêntrica. Narcisa, com medo de envelhecer e de um dia casar a filha e ser avó.

Do outro lado, um marido tolerante ao desperdício e gastos supérfluos da mulher, em troca do seu silêncio e descaso, com suas noitadas , casos e gastos com outras mulheres.

Machado revela o abismo do casamento em cenas normais e comuns no dia-a dia da existência!





O Velho e o Mar


Ernest Hemingway, Civilização Brasileira, 1968.
Resenha por Dilma Bittencourt

Luta Por Existir

O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, uma história de resistência, afeto, questionamento, sobrevivência.

Um velho miserável pescador luta em alto mar para apreender sua presa e chegar até o ponto final.

Conversa em pensamento, em voz alta, consigo mesmo, testando sua força, vontade, suas dores, seus ferimentos, seus pecados, sua culpa, sua inocência.

Depois de longo tempo, retorna à sua velha cabana, com o esqueleto de um peixe descomunal, retrato de sua luta.

Luta com os tubarões, que no seu caminho arrancavam pedaço por pedaço da carne do peixe. Símbolo de sua história.

À sua espera, o rapazote, seu ajudante de priscas eras, o aguardava. Amigo eterno do velho pescador, o recebe e lhe dá ânimo para continuar.

Juntos investiriam no sonho de serem felizes pescadores! Uma narrativa que emociona o leitor, no passo a passo do mistério de seu encadeamento.





Frei Simão


Organização Gustavo Bernardo
Contos de amor e ciúme- Machado de Assis-Ed. Rocco, 2008.
Resenha por Dilma Bittencourt

Ardil de Morte

Louco, se perguntam abade e frades. Questionam o mistério e história de vida taciturna, solitária e cruel, no conto “Frei Simão”, de Machado de Assis.

Uma história de submissão, renúncia. Louco em saber que se tem pai e mãe, mas não se tem. Louco em se sentir só, inteiramente descrente do mundo. Louco por ter pais egoístas e desumanos, Por ser um objeto descartável, medido a interesses dos pais. Louco por não fazê- lo acreditar em mais ninguém.

Frei Simão, em suas últimas palavras ao abade, em morte prematura, no convento, traduz tudo: “morro odiando a humanidade.”

Louco por tentar amar e ser amado e impedido em trama ardilosa de seus pais.

Em suas narrativas, romances, contos, em sua escrita, Machado de Assis leva o leitor a sua imensa preocupação com o poder e o dinheiro, como senhor dos seres vivos, no comum e habitual dia-a dia , dos que eliminam o outro sem piedade.

Louco? E loucos, sem nenhum mistério!





Conto De Escola


Machado de Assis, Cosac Naify, 2002
Ilustrações de Nelson Cruz
Resenha por Dilma Bittencourt

Ação e reação em uma escola

Conto de escola, de Machado de Assis, retrata fatos em uma escola no ano de 1840. Uma época da educação com repressão e palmatória. De fim do império, abolição da escravatura e proclamação da República.

O olhar do autor, para a época, já insere na narrativa a corrupção e a delação.

Atemporal nas ações e fatos e reflexão sobre ética e princípios. Machado desenha o comportamento dos personagens, as atitudes de um pai, mestre de seu filho Raimundo e de seus alunos, Pilar e Curvelo.

Um relato das dificuldades do filho-aluno em absorver os ensinamentos e a facilidade de aprender de seu colega Pilar.

Do medo da punição por não aprender e a aceitação de ensinar de seu colega, uma moeda de troca. E a delação de Curvelo ao mestre, tendo como consequência a palmatória.





A Cartomante E Outros Contos


Machado de Assis, Moderna, 2015, 4ª ed.
Pai contra Mãe (conto)
Resenha por Dilma Bittencourt

Incongruências da Existência

Pai contra Mãe, mais um conto de Machado de Assis, desvendando o caráter e a ética do ser e sua existência. Nele deixa o leitor a se perguntar: como reprimir o vício de beber e de furtar, com a tônica da tortura?

O que fez, na escravidão, um dominado fugir? E ter, como castigo, uma coleira de ferro ao pescoço? E o cruel algoz viver apenas à custa do ofício de perseguir e prender escravos fugidos?

Essa é a história de Candinho, um pai amoroso e o algoz! Machado, no conto Pai contra Mãe, fala do afeto, do desprezo e da eterna fonte: a escravidão!

Um passeio pelas contradições da alma humana! Será que humana?





Vermelho Amargo


Bartolomeu Campos de Queirós, Cosac Naif, 2011.
Resenha por Dilma Bittencourt

Vazio da Existência

Prosa poética em dor de ausência, “Vermelho Amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós.

Uma narrativa fragmentada, desvendando as lembranças do passado, encontrando o presente e esperando o futuro incógnito. Profunda, tocada pela emoção, pontuada pelo desaparecimento prematuro de uma mãe, símbolo da afetividade. E posterior existência de uma madrasta cruel.

Sentimento ficcionalizado em uma metáfora. A cor amarga de um vegetal, fruto do exercício de solidão, desamor, em busca da fantasia do amor. Uma leitura de si, através do outro, formatando o seu “eu” e o abandonando à sua sorte.

O mundo submerge no tempo da ausência, na solidão da memória e se aprofunda o tempo da ilusão. No fio da fantasia, da esperança de um tempo de sobrevivência.

“Inventei-me mais inverdades para vencer o dia”, constrói o narrador.

Uma partitura de desafeto, afeto perdido e amor obsessivo, irrecuperável, pela mãe.

O futuro se incendeia na velocidade de um tempo vazio, sem chão nem porão. E a dor angustiante de um infante e seus irmãos.

O destino impiedoso crucifica a fé do infante, apesar de insistir em acreditar em Deus. Atormentado pela presença física de uma madrasta fria, calculista até no corte e divisão do alimento. E pela presença física de um pai ausente.

E o corte de um tomate amargo, personificado pelas mãos ciumentas de uma madrasta venenosa.





Terra e Cinzas


Atiq Rahimi Estação Liberdade, 2002.
Resenha Por Dilma Bittencourt

Sombras de Guerra

Um entrelace entre um narrador onisciente e um narrador protagonista, suas viagens interiores, sonhos, delírios, dão o tom ao conto afegão Terra e Cinzas, de Atiq Rahimi. A guerra e os seus reflexos nas ações e inações de seus personagens, movidos a dor, culpa, desespero, desalento e medo.

O que leva um filho a deixar família e ir em busca de trabalho numa mina?
Vontade de fugir, necessidade de sobrevivência, as questões se embaralham no tempo, que vem e volta na narrativa e se completa em torno de uma cena, de total destruição da aldeia onde morava. Retrato de um rastro de vida, de existência, de dor, de perdas.

E o que restou? O pai e o filho, carentes de afeto, solitários em sua escuridão interior, em uma descrença total no futuro. Um pai aflito com sua incerteza de reencontrar Murad. E sua insegurança e dúvida de como contar a ele o ocorrido. Todas as suas perdas, mãe, irmão, esposa.

Guerra uma fotocópia da loucura onde o protagonista delira em suas lembranças, em seus desejos, em seus sonhos e reage à pergunta que lhe é feita, aos porquês da invasão e destruição de sua aldeia, pela Rússia. E começa a delirar e imaginar um futuro perdido e só.

Sua viagem, com o neto, em busca do filho na mina, cheia de visões e delírios pelo caminho, lhe aguça mais aflição pelo desfecho do desencontro. O fundo da mina, o horário de trabalho não lhe permitiram revê-lo. Mas fica a esperança de um subordinado, por piedade e secretamente, informar-lhe que o pai está vivo.

Um conto memorável, repleto de imaginação dolorida, de sofrimento e de incerteza quanto ao caminho. Um libelo contra a guerra.





A Cidadela


A. J. Cronin, Ed. Record, 1937.
Resenha por Dilma Bittencourt

Raios De Consciência

A Cidadela, romance de A.J. Cronin, emociona e questiona o leitor, em uma viagem pelos meandros profissionais da ética médica.

Dr. Manson, protagonista dessa história de vida ou de morte de pacientes, de atitudes ou de omissões diante do vocábulo dinheiro, da desimportância da vida e do objeto negócio.

O protagonista vive o drama de como permanecer calado e indiferente diante de um sistema de saúde falido, em sentido ético e de existência.

As histórias denunciam o comportamento dos profissionais e a utopia de quem luta pelas mudanças do sistema.

Dr. Manson, um médico cheio de ideias, tem como lastro a mulher Christine, personagem que lhe suscita certezas em momentos de dúvidas e conflitos, com a profissão e consigo mesmo.

Um clássico romance de época, uma análise psicológica das personalidades comprometidas com o individualismo, posição social e um falso academicismo. Tão contemporâneo diante da indigência do sistema de saúde atual!

A amargura e o conflito do protagonista permanecem em todo processo das infinitas resoluções, de si e de seus parceiros e colegas médicos. Mas, ao final, se rebela em uma defesa memorável e uma vitória significativa para sua consciência!





Ciranda De Pedra


Lygia Fagundes Telles, Rocco, 1998
Resenha por Dilma Bittencourt

Vida Em Família?

Clássico da literatura, Ciranda de Pedra, em linguagem fluida, numa narrativa envolvente, a permitir um “strip tease” do comportamento humano de uma “família”.

Uma ciranda de traição, rejeição, culpa, hipocrisia, vingança, repressão de sentimento, generosidade, utilização, arrependimento, marcas do comportamento.

Uma traição desenvolve toda uma trama e as diferentes reações em família. Se desenha o perfil de cada um, e a negação desse perfil pela contradição da culpa, da hipocrisia, vingança, e desafios a enfrentar na relação comum e indesejada de permanecer juntos, com defesas diversas.

Uma relação de amor e ódio se constrói. Quem seria essa mãe traidora? Culpada? Por que enlouqueceu? Quem seria esse marido sisudo, distante, formal, um homem de negócios, fazedor de dinheiro para o desfrute da família?

E o amante? Um generoso companheiro, nos momentos mais difíceis da doença de sua amada? Seria traição por amor? Desejo de afeto?

Dois seres que se encontram. Verdadeiro encontro de duas vidas. E um final trágico pelo encontro com a morte, natural da amada e, pelo suicídio, do companheiro. A traição afetiva da mãe projeta, por incompreensão, nuances diversas nas relações das filhas com seus diversos parceiros.

Rica a relação entre os filhos, o leitor se emociona com os sentimentos, as adversidades e o dia a dia construído. Num lugar onde a natureza fala, e os empregados também fazem parte do contexto desta narrativa cheia de questionamentos e reflexão.

O leitor também se diverte. E também reflete sobre a relação egoísta e generosa do ser humano com os seus e com o mundo!





A Mão e a Luva


Machado de Assis, Ed. Nova Fronteira, 2016, vol. I
Resenha por Dilma Bittencourt

Ambiguidades do Amor

Será que a vida merece tanta ambição, idealização de visibilidade? Narcisismo? Será que o amor vence o tédio?

A Mão e a Luva, de Machado, uma novela-símbolo do amor. Amor de mãe, de madrinha, de segunda-mãe (Baronesa), amor de dama de companhia (Mrs. Oswald), amor fútil de autocontemplação, narciso, amor de si própria (Guiomar). Amor masoquista e de amigo enganado (Estevão). Amor-próprio e de amigo (Luís Alves)?

Cada personagem reflete o seu interior, o seu afeto, as suas contradições e a razão de lidar com o outro, em mundos exteriores diversos.

Uns suprem o vazio com a necessidade de afeto do outro (Baronesa e Mrs. Oswald) e se encontram nas alegrias e dificuldades.

A traição não deixa de refletir a amizade e a compaixão de Luís Alves por Estevão. Mas veste a luva da razão e do interesse próprio.

Guiomar lhe encanta com sua beleza. Ou será que uma luva veste a indiferença, o pouco caso, o individualismo? A ausência de compaixão de uma outra mão? A mão do egoísmo, da frieza de Guiomar com o ex-namorado Estevão?

Estevão, um personagem frágil, afetuoso, que se entrega, masoquistamente, a uma paixão ilusória de quem quer ser apenas admirada! Uma alma de pedra? Guiomar, que o descarta com desprezo, com uma simples frase: “-esqueça-se disso”.

A mão e a luva, uma metáfora do destino? Uma luva que veste a mão do tempo futuro e presente, pois o passado, Guiomar e Luís Alves esquecem!

Quem é ele? Estevão? O outro! Inexiste!

Será o amor um complexo de conveniências, razões e afinidades? Guiomar veste o nome poderoso do marido e sua admiração por esse poder. Luís Alves veste a força e a vontade do poder e do mistério. Uma ambição poderosa de troca!

O mistério do amor encontra em Guiomar uma sombra de mulher, visível apenas em sua futilidade e beleza!





Helena


Machado de Assis, Ed. Nova Fronteira, vol.1, 2016
Resenha por Dilma Bittencourt

Veias de uma Sociedade

Um romance de época? Ou revelador dos costumes de uma atemporal sociedade elitista?

Machado retrata em HELENA o homem dominado por um instinto de superioridade. Uma classe que se curva às aparências, dominada pelo poder, interesses, visibilidade e dinheiro.

O papel da mulher submissa a um marido eternamente infiel. Assim é representada a mulher do Conselheiro. Subjugada, sofre a certeza da traição, calada. Se recolhendo ao recato e ao amor ao filho.

Conselheiro, personagem-chave do romance, desencadeia o retrato familiar de uma sociedade conservadora, com suas leviandades, aparências, futilidades.

Ao assumir Helena como filha em testamento, em uma relação amorosa com Ângela, decreta uma mentira legalizada, com direitos à herança. Desconhecendo a existência do verdadeiro pai, que viaja para o enterro do progenitor. Quando regressa sua companheira já está nos braços do Conselheiro. E o engana que o pai de Helena está morto.

Com isso decreta a sentença de renúncia da filha ao verdadeiro pai, empobrecido, sem condições financeiras de assumi-la.

Estácio, filho único do Conselheiro, recebe Helena como irmã, ignorando a verdade. Úrsula, sua tia, em principio rejeita essa relação, por desconhecer as origens sociais de Helena. Que educada pelo pai emprestado, soma uma série de predicados intelectuais, culturais, manuais, qualidades que Estácio aprecia e deseja para uma mulher.

Helena e Estácio se conformam com a vida de irmãos confidentes, mas, inconscientemente, ele a amava de uma outra forma. Ela, detentora da verdade, conscientemente grita seu amor, sem revelar quem!

Camargo, médico e amigo da família, ambiciona casar a filha Eugênia com o filho do Conselheiro, impondo-lhe um cargo de deputado para lhe dar mais posição. Estácio foge do compromisso até o último instante, pois não encontra na moça, fútil e rebelde, nenhuma afinidade.

Helena escolhe Mendonça, um rapaz digno, como relata, para um futuro noivado. Descoberta a mentira, Helena entra em desespero, se sentindo uma intrusa na família.

O amor e toda relação de afeto de Helena com o pai, que desaparece depois de revelar a sua identidade, tornam-se a chave da sua solidão. Sua renúncia a Estácio e ao pai a leva a uma tentativa de suicídio. Enfraquecida, morre por não poder revelar o seu amor. Pautada pelas aparências de uma sociedade julgadora da sua verdade. Onde um testamento vale mais que uma vida!





Rita No Pomar


Rinaldo de Fernandes, Sete Letras, 2008.
Posfácio Silviano Santiago: A ARTE DO PENTEADO
Resenha por Dilma Bittencourt

Infinita Solidão

Romance moderno, com narrativas fragmentadas, em lembranças, atos, no tempo e no espaço. Recortes em diário, contos, memórias reveladas em monólogo da protagonista Rita ao seu cão.

Uma narrativa em que o leitor dialoga com fortes emoções, em uma história acidentada, de mortes, assassinatos, traição, abandono e frustrações familiares.

A protagonista, em seus delírios e sonhos, atravessa uma relação solitária e incompleta em seus desejos: de ter um filho, um real marido, e, não, um ator representando afeto, com intenções diversas que o leva para um final trágico. Com o segundo marido, uma relação idealizada, de construção de afeto e morada, se esvai no abandono e traição de Pedro, e sua fuga com um homem para outro lugar.

Rita, jornalista frustrada em suas intenções de escrita, não rompe o silêncio dos seus textos. Medo de crítica? Ou renúncia de desejos? Rita, dependente de afeto, com uma mãe cega fisicamente e em relação ao marido da filha, com quem a trai. Sem enxergar os interesses financeiros de André.

Rita, com fome de proximidade e compartilhamento, projeta suas emoções no cão amigo e companheiro, que lhe escuta com olhares, gestos e lambidos. Também faminto de atenção!

Contraditoriamente, ao final ela lhe fala: “ E não late, que eu também te mato.”





Essa Gente


Chico Buarque, 1º edição, 2019, Companhia das Letras.
Resenha por Dilma Bittencourt

Desastrado Mundo

Romance e crônica de um universo solitário. Essa Gente, de Chico Buarque. Uma janela aberta para um olhar carente, à procura de um afeto, no vazio de uma sala, de um espaço perdido.

Duarte, um narrador-personagem em busca permanente por suas relações desfeitas, pai, marido duplo e amante e seus inconclusos desejos.

O cotidiano grita. Seja no Vidigal ou no Leblon. Grita no cenário de exclusão e de expulsão.

Ficção e realidade se misturam em personagens e fatos. O autor imagina, presencia e vive os fatos na criação de seus personagens. Derrama fatos em que satiriza o tratamento autoritário e excludente com o diferente, o desigual...

Economia, política, religião, preconceitos, desigualdades, indigência, relações interessadas e interesseiras, egoísmo, pouco caso, pedofilia, racismo, ódio, se desenham no dia a dia do conflito do tempo-espaço de todos os tempos.

Imagens e cenas fortes. Violência, segurança-insegura, decretos absurdos, imposição religiosa, descrença na fé. Um viés doloroso das relações atuais. Retrato de um tempo. Da intolerância.

Um aperitivo literário profundo, em narrativas fragmentadas e breves. O leitor reflexivo, atento, se desloca para uma sessão terapêutico-psicanalítica de cada personagem. Em relações dúbias, contraditórias, sociais, familiares e de projeções.

Esse escritor de prosa, versos e canções, dá voz e ritmo tragicômico ao teor, olhares dos personagens, delírios do narrador- protagonista. E a um final desastrado de amargura, em um mundo insipido e vão.





Intragável


Marília Passos, Editora Labrador, 2019
Resenha por: Dilma Bittencourt

Ponto De Afirmação

“Intragável”, romance moderno de Marília Passos, com narrativa fluente, retrata a posição e dificuldades da mulher no mundo de hoje.

A protagonista, uma executiva de sucesso, define seu ideal de vida sem interferências de marido e filhos. Contraditória, não renuncia à ideia da maternidade, mas se abstém de qualquer elo de afeto e de responsabilidade na relação familiar, transferindo-os totalmente ao marido. Relativizando o seu trabalho de comerciante, seus desejos, reconhece suas vontades de ir e vir, mas sem a obrigação de sua companhia.

No trabalho, define seus assessores como vaidosos, deslumbrados, competitivos, machistas. Homens do mercado. Constrói essa imagem e não se percebe vestida como eles, de toda a empáfia de um setor de endinheirados.

Ser mulher nesse mundo de exclusão, privilégio de homens lhe faz muito mal. Bebe e bebe para justificar suas vinganças com os parceiros no trabalho, humilhando-os diante dos sócios da empresa, nas reuniões de conferência de metas. Mas a crise no mercado e as artimanhas dos vingados lhe causam a demissão no banco.

O umbigo do mundo se desfaz. A ego centrada se vê às voltas com a decisão do marido de sair de casa. Forma de acordar a princesa para a vida.

A intragável busca o caminho da reflexão. Encontra um trabalho independente, com a competência que tem, e com muito mais sucesso. Porém, ascende a linha de reconhecimento da existência dos filhos e do marido





O Verão Tardio


Luiz Ruffato, 1a.ed.2019, Companhia das Letras.
Resenha por: Dilma Bittencourt

Círculo do Reencontro

Cinco dias apenas, depois de 35 anos, onde o narrador Oséias, em O Verão Tardio, de Luiz Ruffato, reporta e fotografa a memória de sua cidade: Cataguases, MG, em seu reencontro.

O leitor penetra em suas lembranças, nos seus passos pelos lugares, como se presenciasse os fatos, acontecimentos do passado e em sua rotina atual. Tal a imagem nítida das palavras, pensamentos e lembranças numa cidade ora decadente: “a cidade está feia, suja, fedendo a mijo.”

O maior impacto é o encontro com seus irmãos, pois pais e parentes todos mortos. Oséias sublinha as lembranças apagadas e a indiferença à sua presença quando ouve: “o que você veio fazer aqui, Zezo?”.

No ar ficou o seu sentimento de culpa pelo suicídio da irmã Ligia. O mistério que ele debita a si, por ter indicado o lugar da arma do pai. Por que culpa, se criança era? Causas não aparecem, uma irmã leitora, reflexiva, dentro dela mesma.

Só restam perguntas ao leitor. A resposta é imprecisa, porém, o narrador ao destruir sua identidade, um documento que não lhe diz quem ainda é, doente e sem coragem de falar das suas agruras, deixa o rastro da indiferença, do pouco caso...

Distancia-se e se despede, quem sabe da vida, e se encolhe no esquecimento de que um dia pertenceu a uma família.





CONVERSANDO COM LYGIA: Nota da Autora


Dilma Bittencourt
“Conversando Com Lygia na 3ª e em 1ª: www.cartasresenhasbilhetes.etc”, uma viagem no tempo e no espaço, uma metáfora para a invenção, fantasia, desejos, realidade e fantasia-realidade. A autora Dilma Bittencourt conversa com a vida, lembranças, memórias, memórias inventadas, leituras interiores do próprio eu, do mundo externo, um bate-papo formal e informal com os personagens de Lygia, com a autora Lygia e com Lygia.

A autora pontua e define esse desfecho no próprio livro, na pg.53, quando faz a sinopse dele e a ponte entre a narradora-protagonista (Penélope) com os demais personagens, em blog próprio e abre para outro personagem (Josué Faissol) um espaço para a sua leitura de obras de Lygia Bojunga, através de resenhas.

Por outro lado, informalmente, a autora faz uma leitura analítica de outros livros de Lygia, como se conversasse com os seus personagens em linguagem cifrada. E desenvolve a trama através da intenção da escrita, calcada nos personagens Raquel e Lourenço, de Lygia Bojunga, com a pergunta implícita: o que faz a literatura se reescrever através de outros autores? Se re-imaginar? Alcançar os sentimentos e se desdobrar em outras metáforas? O que faz o escritor escrever?

Seria Penélope uma narradora isenta? Sem olhos, sem ouvidos, só pensamento? Só imaginação? Ou seria ela um fragmento de todos os personagens? Dos autores lidos? De imagens acolhidas? Dona de uma história, em várias histórias de vida?

Até onde Penélope é uma mentira ou uma verdade? Fragmento da autora? Fragmento de tantos personagens?

Até onde a fantasia e a realidade de um autor se cruzam em outra realidade e fantasia de outro autor? Separar autor e personagem é como tentar dividir o átomo e pretender chegar ao infinito.

“Conversando com Lygia” são monólogos e diálogos em espaços longínquos e próximos, em um tempo atemporal. Onde as sintonias se cruzam, as energias não se evaporam, as leituras interiores se repaginam, expiradas e inspiradas em folhas novas e amareladas. Espaço onde os personagens se disfarçam em múltiplos, em suas preocupações, ansiedades, repressões, em suas necessidades vitais de se expressarem.

O Epílogo é o desfecho dessa necessidade. Expressa em razões e no direito de conceder a si, autor e personagens, o devaneio na expressão do outro, e desse encontro o expressar em si.





Querida


Lygia Bojunga, Casa Lygia Bojunga, 2009
Ilustração: Regina Yolanda
Resenha por Dilma Bittencourt

As Máscaras do Cotidiano

O que faz de Querida, a mais recente obra de Lygia Bojunga, uma peça encenada? Um encontro marcado com o teatro?

Mestre em contar histórias e dramatizar a escrita, a autora-atriz constrói o cenário do texto. Encena a palavra, significa o gesto, a ação, a imobilidade e o silêncio dos personagens. Dá a eles imagem e acústica. Integra as pausas como se deixasse o leitor-espectador respirar a cena, para ouvir os diálogos.

Teatro – marca de sua paixão, integração de toda sua obra – fantasia-delírio, real-delírio, luz e sombra, limites tênues da alma humana, simbolizados pela máscara (foto da capa) semi-iluminada, de sua autoria.

Querida, uma metáfora da representação? Fragmentos do “eu” e do outro em mim? Construção e desconstrução de “verdades”?

Já no prólogo, através do narrador personagem, Lygia delineia as fronteiras do real e imaginário com um narrador presente e, ao mesmo tempo, distante, dono de um real opaco, criador de memórias inventadas. Seria ele um viajante da ilusão, do esquecimento? Construtor e demolidor do transitório? Uma metáfora do teatro?

“...Não conseguia mais relembrar... como tinha sempre lembrado... agora... a Ella me aparecia com a cara que eu estava vendo pela primeira vez... minhas lembranças me forçavam a recriar a memória...”.

Querida, teatro da vida, uma interrogação ao drama sobre os conflitos. Até que ponto são reais e fruto da imaginação?

Em histórias entrecortadas, a autora faz um contraponto à realidade da fome, como se sublinhasse as diferenças do acaso: a fome transitória de Pollux, em sua fuga de casa, suprida pelo encontro e afeto do tio. E a fome de comida e de afeto de Bis e Velha, em busca do regresso à família e a sua terra.

Querida, um cenário de carências e afetos e de ensaios dos desejos e ações. Elos que identificam os protagonistas (Pollux, Pacífico e Ella) e se estendem aos coadjuvantes (Bis e Velha), somados aos seus dramas sociais, dificuldades e incertezas.

O homem, como qualquer personagem, colocando em cena seus medos, obsessões, fantasmas, carências, desejos e afetos. Soluções e interrogações. Sua mobilidade e imobilidade diante das ações e reações. Tirando e colocando as máscaras. Acreditando e delirando. Fingindo e delirando.

Em quantos papéis se desdobra a máscara de Ella? Realidade de uma foto, ficção de uma memória? Lembranças de um narrador-personagem? Ella, atriz estrela? Fracasso de atriz? Agoniada, representando para si, a atriz?

Quem seria Ella? Ilusão e servidão de Pacífico? Fantasma que se esconde do mundo e brinca com ele? Brinca ou não percebe? Ou percebe e alimenta o tempo e escolhe o momento? Ou não brinca e espera o tempo de reconstrução da pessoa e da atriz, através dos olhos de Pacífico? Contracenando com ele no palco?

Em quantos Pollux ela se transforma com seu “L” duplo, representando o ciúme? O desejo de posse, a carência, a insegurança, a busca de identidade?

Pólux, um inventor de histórias inspiradas na relação obsessiva com a mãe, no encontro oportuno e casual com Bis e Velha, e nas fantasias de perseguição e exclusão reveladas ao tio. Vestindo a máscara do desconsolo e da tragédia. Construindo o grande escritor através do ouvido generoso de Pacífico. Livre das carências afetivas próprias e alheias? Prisioneiro do sucesso, prisioneiro do escritor? Vestindo a máscara do glamour? Ou autor de si...

Autor das circunstâncias e fantasias? Pollux, pé no chão, olho no céu, querendo ser astrônomo. Pollux, fingindo um personagem, pensando ser ator. Pollux, uma metáfora da vida e do teatro?

Os personagens são tão simples e tão complexos que refletem indagações. Quem sou eu? Uma divisão de fragmentos?...

Quem sou eu? Pergunta Pacífico.

Um simples espectador de Ella da platéia, projetando o desejo de ator? Apaixonado pela musa (atriz), pelo teatro e pela Querida, projetando em Ella a mãe e o filho servidor? Um falso conformista, à espera de Ella? Numa falsa imobilidade? Ou um perseguidor obsessivo dos próprios sonhos? Sou eu? Autor da vida e do teatro?





A Casa da Madrinha


Lygia Bojunga, Casa Lygia Bojunga, 2005, 19º ed. 4ª reimpr.
Ilustração: Regina Yolanda
Resenha por Dilma Bittencourt

Condição do Cotidiano

Livro-teatro. Teatro-livro. Esta é uma marca de toda obra de Lygia Bojunga. Em “A Casa da Madrinha”, o texto não é exceção. As palavras tocam os olhos e os ouvidos, através de uma narrativa oral, uma conversa informal com o leitor, cheia de imagens. A autora dá entonação à palavra como se preparasse o leitor-espectador para a cena. Como se ele ouvisse o texto. Ilustra a palavra e o transporta ao objeto vivo em suas mãos.

O compromisso da autora com a informalidade é tão acentuado que o personagem pega carona na narrativa para reiniciar o seu diálogo com o interlocutor. “E Alexandre se virou com o grito. Ficou bobo”. Fim do capítulo. “Eu fiquei bobo”. Início de outro.

Como bem define Laura Sandroni em “De Lobato a Bojunga”, editora Agir, 1987, “a Autora usa de recursos vários, descobrindo múltiplos usos da língua e instaurando o espaço de liberdade e subversão que é o texto literário”.

Ao mesmo tempo em que inspira a criança a sobrevoos pelo lúdico, provoca reflexão através da fábula. O real e o imaginário se confundem, a toda hora, onde o limite entre os dois é a cerca que separa o sítio de Vera, protagonista da história, e a casa da madrinha, uma metáfora da esperança e do desejo. Onde através da lembrança e da idealização, o protagonista Alexandre escapa da difícil realidade do seu cotidiano.

A autora faz uma brincadeira com o tempo e o espaço, quando para os relógios de pulso de Vera e o relógio de pé da casa da madrinha. Como se colocasse os sonhos numa nave e a realidade ficasse esperando do lado de fora.

Será o tempo uma ilusão? E o espaço, o movimento do vazio? Onde Alexandre, Vera, a gata da capa e o pavão buscam o céu e o chão?

Outra marca da obra da autora nos remete ao neo-realismo do cinema italiano, onde o social sublinha a trama. E, ainda, o olhar interior de seus personagens nos conduz a Dostoievski. E provoca, no leitor, a leitura do mundo em si e a leitura de si. O mundo da consciência olhado e pensado.

Lygia desmistifica temas que não fazem parte do cardápio comum dos livros para crianças. As cenas são sempre reais, mas acontecem como mágicas. Um mar de vivências bem refletidas.

A criança participa de uma brincadeira séria. Bem humorada e bem resolvida. Sem nenhuma lição de moral. Lygia trabalha o ético através dos conflitos, nas decisões e nos arrependimentos.

Fala da condição humana sem alarmismo. Sem gritos, de forma suave. Como se deslocasse a nuvem. E fotografasse o complexo sentimento humano.

Através do personagem gata da capa, a autora fala de solidão, de preconceito, de autoestima. Uma gata vira-lata que se esconde numa capa (defesa) contra o homem, o animal e os próprios gatos. Por outro lado, feliz, encontra um sótão que lhe dá abrigo e segurança. Fresta de sol. E, por fim, o poço?

Através do pavão, fala da beleza, sua utilização e exploração. E do silêncio imposto ao homem no cotidiano. Fala do poder e da propriedade. Fala do medo, do fantasma do castigo, da subserviência.

A Casa da Madrinha, como toda sua obra, é um convite à reflexão e ao prazer. O leitor escolhe a dose de envolvimento. E se transporta às originais e premiadíssimas histórias. Clássicos da leitura universal, sem classificações de idade e tempo.





Metamorfose


Franz Kafka
Editora companhia Das Letras, 2ed. 2003.
Resenha por Dilma Bittencourt

Um ser alijado

Metamorfose, de Franz Kafka, uma leitura não de uma época, de um lugar, de um momento. Uma leitura da condição humana, real, da invisibilidade.

Do descarte, da insignificância, da libertação diante da inconveniência. Não importa se família, se amigo, se empregado, faxineira, hóspede.

Gregor Samsa, um personagem, protagonista de toda ação, olha, pela fresta da porta, o comportamento insensível de um patrão, de uma irmã, pai, mãe, diante do homem-inseto.

Enquanto homem utilizável ao bel prazer de todos, economicamente e emocionalmente, existe. Transformado em inseto, se olha conscientemente e se ajusta à sua condição do nada, do ninguém.

E vai se arrastando pelo chão, voando pelas paredes, deixando suas marcas de desconforto, com o desprezo. Será de si? Por si? Ou pelo descaso do mundo?

Mundo tão real, tão natural que não o surpreende.

Sem qualquer possibilidade de sobrevivência, o personagem interiormente se despede, com afeto, da família. E o inseto sucumbe à morte, ao ouvir, distante, seus familiares: ” precisamos tentar nos livrar dele”. Diria, descartá-lo.

E a roda do mundo continua circular normalmente.





A Menina que Engoliu o Sapo


Dilma Bittencourt, Editora Topbooks.
Resenha por Vanessa Perroni - vperroni@hojeemdia.com.br

Publicado originalmente jornal

Ausência e tempo: livro ensina a lidar com sentimentos

Pela ilustração da capa e o título – “A Menina que Engoliu o Sapo” –, você pode até pensar que se trata de um livro para crianças a partir dos três anos de idade. Mas o volume de páginas já aponta outro caminho e, ao correr os olhos pela escrita um pouco mais rebuscada, percebe-se logo que a publicação é voltada para o público infantojuvenil.

A obra da carioca Dilma Bittencourt trata de temas como a relação com o tempo e o péssimo hábito de guardar sentimentos, “engolindo sapos” durante a vida, e a forma como isso influencia no amadurecimento. A autora nos apresenta Priscila, menina que vive à espera do pai (que saiu de casa) e que precisa conviver com uma mãe preconceituosa e amarga.

A protagonista nos mostra seu universo de forma poética e misteriosa. No desenrolar da história, muitos personagens atravessam o caminho da menina: a cozinheira, o padre e até Deus. Tudo permeado pela procura contínua por um casaco desaparecido, metáfora do abrigo que só o pai poderia proporcionar.

Todos os encontros parecem ter uma base filosófica, cheia de termos e expressões sofisticadas, algo pouco visto em obras para este público, o que em nada atrapalha o entendimento da trama sobre separação, amor, solidão, ciúme, homossexualidade, saudade e dor. No final, tudo está ligado ao tempo, definido pela autora, no epílogo, como “um acorde tocando a eternidade”.





TCHAU


Lygia Bojunga, 17. ed.2005,Casa Lygia Bojunga.
Resenha por Dilma Bittencourt

Sutilezas do Afeto

“TCHAU”, contos e cantos por Lygia Bojunga. Quatro contos em um. Não seria o “TCHAU” uma novela do cotidiano?

Narrativas tecem peculiaridades sobre o ato de amar, de forma lúdica, às vezes cômica e ao mesmo tempo triste. O primeiro conto dá título ao livro. Um tchau ao núcleo familiar pela inconsequente paixão de uma mãe egocentrada, que parte numa aventura sem questionar o abandono de um bebê e de uma filha adolescente!

No segundo, “O bife e a pipoca”, traça novo paralelo sobre o afeto. O amigo que parte, o vazio na escola e o silencio se repete: cartas enviadas sem retorno. A busca por novo amigo se despede em relação conflituosa, por condições sociais diferentes.

Os símbolos bife (desejo), pipoca (vontade) não se realizam pelas circunstâncias adversas de um canto de vida: o luxo e o desastre de um bife desejado morrendo no tapete. E a vontade esmorece com as pipocas voando soltas, num quarto miserável de uma favela, em cena chocante de uma mãe alcoólatra. Um desfecho desesperador rompe laços de afeto de dois possíveis amigos. De um lado, revolta. Do outro, medo de um lugar massacrante. Motivos de um tchau definitivo!

No terceiro conto, “Troca e tarefa”, uma metáfora para engolir a carência, sublimar a dor, o ciúme, a vontade de morrer, através da construção de histórias e personagens: a troca! E a tarefa, desconstrução da morte em busca de uma paixão, razão de vida: escrever!

No quarto conto, “Lá no mar”, o vazio, a solidão, a perda, delineiam o cotidiano de um pescador e o seu barco, em diálogo nas tempestades, ondas e relâmpagos, aos arrepios e medo.

O mar conta a história da saudade e da tristeza, do apego mútuo de um barco e seu dono. E o encontro do solitário pescador com o fundo do mar, em busca do pai e do avô. E o barco perdido, sem dono, encontra um novo destino: um menino conversador e musical que volta a dar luz e vida a um barco cansado; no abrigo de um novo dono, brinca nas areias!





O SOFÁ ESTAMPADO


Lygia Bojunga, 31º ed.2004, Casa Lygia Bojunga.
Resenha por Dilma Bittencourt

Utopia de um Lugar

O Sofá Estampado, cenário humorado e reflexivo de objetos e personagens que atravessam o universo de histórias de Lygia Bojunga.

Onde, aonde, em que lugar encontra a pergunta de um tatu (Vitor), frágil e sensível, engasgado nas incertezas de ser aceito e com a dificuldade de contrariar e dizer não.

Um fugitivo das repressões de um pai impositivo e de uma mãe compreensiva, mas esposa obediente ao jeito mandão dele introjetar os seus desejos, afirmar suas vontades e decidir pelo filho.

O tatu cava e cava um lugar para fugir da sua timidez, do seu medo de falar, de se expor, de evidências, então se esconde da professora, dos colegas, dos amigos da mãe.

O chão, o túnel, sinalizam o lugar de um arqueólogo do afeto, onde o tatu busca o encontro com a vó, uma identidade de propósitos e modo de ser, generoso com o mundo.

O sofá estampado da gata angorá Dalva, sua paixão, simboliza o túmulo do seu amor, silêncio de suas correspondências fechadas e sem resposta, ali enterradas e descobertas. Lugar de status, de uma gata obsessiva e domesticada pela tv e seus anúncios supérfluos que lhe rendem o prêmio e medalha da ouvinte mais assídua.

A mala da vó, que se perdeu em suas andanças pela Amazônia, encontra o neto no seu túnel solitário, entregue por um inventor, criador de um lugar de utopias possíveis.

Com ela o Tatu carrega suas lembranças, esquece os engasgos e sai, como a avó, tentando encontrar o mundo!





ANGÉLICA


Lygia Bojunga, 24º ed., 2010, Casa Lygia Bojunga.
Resenha por Dilma Bittencourt

Ser Sem Disfarces


Até que ponto o ser se limita por exclusão, bulling, intolerância, vergonha, orfandade, solidão, medo, falta de teto, estudo, nenhuma oportunidade?

Ou se exclui por pressão familiar, ideias divergentes e se recolhe a uma suposta insignificância diante de um mundo tão autorreferente e cruel?

Em Angélica, a autora pontua a resposta pelo afeto, reconhecimento do outro, compartilhamento dos objetos, dinheiro, do ensinamento, das ideias. E ainda pelo direito de ser, fazer e externar o talento e a afirmação de sua identidade.

O encontro do afeto faz dos símbolos porco (Porto) e cegonha (Angélica) personagens centrais, descobrirem o sentido da vida e da vontade de caminharem juntos, vivenciarem experiências que se completam e os tornam cúmplices das dificuldades e da certeza de ultrapassá-las.

E dessas experiências surge o roteiro para a peça, que bolaram juntos que conta a história familiar de Angélica e suas discordâncias com o modo de vida e da mentira para sobreviver e ser respeitado. Integrando outros atores que de certa forma se encontram no mesmo círculo de vida e necessidades.

E com a linguagem da imaginação os personagens vão “abotoando as ideias”, com dificuldades e soluções e se realizando, numa peça bem humorada, com a veia e o espírito lúdico de Lygia, numa criativa representação teatral.





O MEU AMIGO PINTOR


Lygia Bojunga
Editora Casa Lygia Bojunga, 22ª. ed., 2004
Ilustrações: Vilma Pasqualini

Resenha por Dilma Bittencourt

O Porquê da Razão?


Amor, arte, política. Retrato interno de um pintor, revelado em seus quadros, expressão do afeto, carências e sentimentos.

Em O MEU AMIGO PINTOR, Lygia, com leveza, dá ao jovem a dimensão realista da vida, abordando temas complexos, de difícil reflexão.

Em uma linguagem amena, foca o suicídio, o porquê e o impacto do fato acontecido. E, ainda, através de objetos, simboliza a relação de afeto entre um adolescente e um pintor solitário.

O tabuleiro de gamão representa o desfrute do convívio do jogo diário, em laço contínuo de afetividade. O relógio de parede na casa do pintor, constante em sua batida, de hora em hora e a cada meia hora, revela sua presença viva, refletida no andar de cima.

E quando a batida silencia, o tempo para e a ausência de corda presencia a carência do adolescente pela perda do amigo.

Amigo pintor, desbravador dos pensamentos e questionamentos do menino através das cores, tintas, pincéis; retrato de seu mundo adverso na política, no amor e, quem sabe, na arte: construção de seu suicídio!





OS COLEGAS


Lygia Bojunga
Casa Lygia Bojunga, 50ª edição, 2004

Por Dilma Bittencourt

Vida e Encontros

“Os Colegas”, uma metáfora para os laços da amizade, do afeto e da construção de vidas, onde os sentimentos de identidade, permanência e liberdade dão voz ao humor e reflexão às histórias de bichos em forma de gente.

Tudo começa com a disputa de um osso, onde a competição de dois cães vira-latas, sem nome, se transforma em união, pela identificação com a música e o samba; surgem então Virinha e Latinha, compositor e letrista.

Aos dois se une Flor, uma cachorrinha de madame, que se encontra com a liberdade e identidade em fuga do desespero e da opressão de uma dona obsessiva por luxos, perfumes, pulseiras e enfeites que atende apenas aos seus caprichos e status.

Voz de Cristal, urso peludo, surge na vida dos três colegas quando foge do Zoológico na busca por conhecer o mundo, encontrar o prazer e o fazer em liberdade, e chegar ao circo pela mão dos amigos, e brindar a vida com a sua cuíca.

Cara de Pau, o coelho, completa o grupo. De perdido e abandonado por seus pais e tios, do medo de viver só, da rejeição e da carência, sobrevive com o acolhimento dos colegas e sua luta para mantê-los todos juntos.

E as histórias vão se construindo no tempo dos encontros, das dificuldades e, por fim, da permanência de um grupo que desejava a vida com liberdade, casa-circo-lugar, com seus instrumentos musicais e alimento.

As ilustrações de Gian Calvi dão vida aos personagens e suas peripécias!





Conto “As Três Fiandeiras” do livro “Branca de Neve e Outras Histórias”, dos Irmãos Grimm, Editora Revan, 2005


Por Dilma Bittencourt

Destino do Verbo Espreguiçar

Quem quiser, fia. Quem não quiser, manda. Qual a distância de quem fia? De quem deseja? De quem escolhe? De quem pode?

Há quem diga que quem não fia é a preguiça. Mas quem persegue o desejo do fio não tem preguiça. E quem tem fio, deseja e não fia, não tem preguiça, tem ócio.

Da preguiça ao casamento, as três fiandeiras dos Irmãos Grimm falam do destino, da sorte, da astúcia, dos desejos, do interesse, do amor e da preguiça.

Astúcia da menina em exagerar a dor no choro afiado. Ao receber, no rosto, tapa da mãe, por não querer fiar.

Reage a menina à necessidade da mãe? A vergonha da mãe diante da preguiça?

Mas o destino a acode e faz a rainha ouvir o choro da menina. A justificativa, em farsa da mãe:

-Não consigo fazê-la deixar o tear. Não tenho dinheiro para comprar tanta fibra de linho.

O mesmo destino aproxima a rainha da menina em direção ao castelo, com três quartos armazenados, do chão ao teto, de fios de fibras inertes.

Encantada com a “disposição” da menina, a rainha perdoa sua pobreza e, como prêmio, lhe oferece o filho mais velho em casamento.

Tempos de negociar o amor e o casamento se fecham em dois atos.

Do ato da mãe para esconder a preguiça da filha, ao ato da rainha para aceitar a pobreza da futura nora.

...- Não é pelo fato de ser pobre que terá o meu desprezo. Sua incansável operosidade é dote suficiente para mim. - Você precisa começar a trabalhar para mim a-ma-nhã!

A menina “preguiçosa”, que não aprendeu a fiar, que não queria fiar, sabe lá se queria casar, desolada chora por não saber o que inventar.

Mas o destino, outra vez, desta feita a presenteia com as três fiandeiras, que de tanto fiar ficaram com o pé chato, o beiço grande e o polegar inchado.

Ardilosamente, a menina as esconde no quarto, dando corda aos fios inertes da rainha.

Fiar e fiar, esta era a condição. Mas, em troca, a aceitação como tias, com direito a sentar com o príncipe na mesa do casamento.

Generosidade em forma de troca? Desejo de inclusão? Busca de aceitação? Autoestima?

O noivo apaixonado, com amor desinteressado, ao ver tias tão feias, pergunta pelo pé chato, o beiço grande e o polegar inchado. De tanto fiar elas respondem.

A menina que não gostava de fiar recebe de presente do noivo: - ”Nunca mais tecer uma única fibra.”

Liberta do trabalho forçado, do casamento utilitário da rainha, a menina dribla as imposições da vida que não se fez destino. E espreguiça...





A BOLSA AMARELA


Lygia Bojunga
Casa Lygia Bojunga, 2006, 33º ed., 10ª reimpressão

Por Dilma Bittencourt
Publicada no livro Conversando com Lygia, Editora TopBooks, 2012

O Eu e o Duplo em A Bolsa Amarela

O divino da condição humana é falar dela com leveza e profundidade. É não deixar de falar. É tentar captar cada ouvido: mouco, adulto, infantil, aguçado e surdo.

Falar da escrita de Lygia Bojunga é delinear sua sensibilidade diante dos seres objetos, condições e circunstâncias.

Como é fácil falar! Mas falar a todos, sem excluir temas, jogando na mesa todos os dados, é privilégio de poucos, não inseridos na simplificação das definições de literatura infanto-juvenil. Literatura é ou não é literatura.

Arte no fundo (conteúdo), na forma (estética). Prazer (no texto e na forma). Existência (questionamento). Cultura (apreciação e diferenciação). Em cada leitor, a subjetividade do seu desfrute ou das suas significações, ou de ambas. Elementos inclusivos das obras dos verdadeiros escritores.

E essa escritora de livros, que encantam adultos e crianças, fala e ouve, em seus textos e narra o cotidiano do mundo em linguagem lúdica e reflexiva.

Em “A Bolsa Amarela” o faz através da protagonista-narradora e dos personagens-símbolos, fragmentos do seu “eu” em cada um, espelho do mundo: eu sou o outro vestida de mim. Onde o galo-rei canta a fantasia e se transforma em Afonso, a realidade. O alfinete desenha o amadurecimento e espeta o ponto de equilíbrio. O guarda-chuva engasga em seus questionamentos. E o galo Terrível encontra os seus valores.

E, num mar de representação e realidade, a autora nomeia sentimentos, expressa defesas, articulações, contradições no mundo da circunstância e da condição do momento.

Tão rico é o texto que a protagonista Raquel narra em primeira pessoa, em terceira, reproduz os diálogos entre personagens. E, em interjeição silenciosa, responde a si o mesmo sentimento. E ainda em primeira, narra conversando consigo e se imagina através de Reinaldo, Arnaldo, Aldo, Geraldo e se pergunta e se responde e, ao mesmo tempo, se imagina dialogando com um suposto interlocutor em posição de monólogo.

A história se desenrola através das vontades da protagonista: a criança querendo ser adulta, a menina que não nasceu garoto, a criança que queria e não podia escrever. Um entrelaçamento de histórias criativas, não lineares, que transitam entre a fantasia e a realidade.

E da última vontade surgem as cartas inventadas, os telegramas, o pequeno romance, símbolos das pressões, frustrações, motivações e crescimento da protagonista em seu desejo de ser escritora.

Seria o treinamento das cartas inventadas e o pequeno romance de “um galo chamado Rei” uma crítica metaforizada às definições de literatura e classificações de gêneros?

E é através delas que a protagonista compartilha com os leitores o sentimento de rejeição, a inconsequência das críticas, a disputa entre irmãos, a solidão. Traça um perfil de uma família repressiva, invasiva, não disponível, autoritária, onde o macho ainda domina. Infantilizadora, que cala a voz da criança.

A bolsa, busca do universo interior de Raquel, retratada pelo desejo de privacidade. Objeto real simbólico, esconderijo de suas vontades, lembranças (retratos e desenhos), angústias (incomunicação dos pais), compensações (amigos), seus duplos: personagens-símbolos. Motor de sua busca por espaço (pensar por si, suas escolhas, aceitações e limites ao outro) e movimento (coragem para agir, enfrentar e superar as adversidades).

Até que ponto a escritora fala, também, através das histórias? Seria a “História de um Galo de Briga e de um carretel de Linha Forte” a superação da criança aos seus limites de escrita? O seu reconhecimento como autora? A sua independência à opinião da crítica? A sua autocrítica?

A Casa dos Consertos, metáfora para o diálogo, afeto e reconhecimento de todas as coisas e pessoas. Contraponto a ideias preconcebidas e tabus. Olho interno de Raquel. Elo que rompe limites da protagonista de ser garota e ser criança. Um pontapé na exclusão e na solidão.





Contos dos Irmãos Grimm, João e Maria, Ed. Rocco, 2005.
Contos de Fadas, João e Maria, Editora Zahar, 2004.


Por Dilma Bittencourt

Resenhando o verbo “contar”.

Quem conta João, quem conta Maria, conta “João e Maria”. Mas, quem conta a mãe de João e de Maria, conta também a madrasta de João e de Maria. Uma personagem em duas, que o tempo se encarregou de transformar. Os Irmãos Grimm, de intenção em intenção, captaram o fantasma da mãe malvada (primeiras versões) e criaram a madrasta cruel, o pivô da história.

Quem sabe pra não assustar a criançada com símbolo de mãe perversa, mesmo que criando estereótipo de madrasta...

Mãe ou madrasta, a questão central é a fome, a sobrevivência e o que fazer diante do impasse.

Quem pergunta é o pai à mulher (madrasta). E faço aqui um parêntesis para duas traduções do mesmo conto de “João e Maria” dos Irmãos Grimm. “-Que vai ser de nós? Como vamos alimentar nossas pobres crianças, quando não temos nada para nós?” (Editora Rocco, 2005). Tradução: Lia Wyler; ou “- ( ... )quando não há comida bastante nem para nós dois?” (Contos de Fadas, Editora Zahar, 2004) Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges.

“Do nada para nós”, as palavras alimentam a possibilidade de divisão do haver.(...) O “bastante nem para nós dois ” alimenta a idéia de prioridade: “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.”

E quem traduz o conto alimenta a sua versão da tradução. Traduzir é como apalpar o gesto. Contar é mergulhar ou nadar na superfície... Dizem que, muito antes de “João e Maria”, se ouvia ao pé do fogão o conto “Irmãozinhos e Irmãzinhas.”

De Perrault (“Pequeno Polegar”), muitos foram os filhos de lenhadores, pobres, habitando um tempo de extrema fome, a caminho da fome, tempos de incertezas. Como na infinidade de contos de fadas, o cenário é a floresta, refúgio do abandono, território do medo e da escuridão.

João e Maria, embrenhados na mata pelo casal, com a intenção de se livrar deles, o pai com culpa, mas convencido pela mulher, arma a fogueira para aquecê-los. A mulher determina que descansem e, com a desculpa do corte da lenha e promessa de regresso, regressam mesmo, só que para casa deles...

Aí começa o destino de João e de Maria. Duas tentativas de abandono. A primeira, abortada pelo sabido João. Ouvindo antes a trama, marca com pedras o caminho de volta. Com cinismo, a mulher os recebe e transfere a responsabilidade do ato às crianças: ”Que meninos mal - comportados! Por que dormiram tanto na floresta? Achamos que vocês não pretendiam mais voltar!”

Na segunda tentativa, os fatos se repetem só que sem pedras. João marca o caminho com farelos de pão. E os pássaros comem o caminho de João... Três dias na floresta, mortos de fome, surge o pássaro branco-neve e lhes empresta o olho em direção à casa encantada. Feita de biscoito, bolo e açúcar, habitada pela bruxa, sacia a fome de João e Maria e os aprisiona.

Com disfarce, a velhinha acolhedora os alimenta, lhes oferece a cama, tenta engordá-los para depois papá-los. Mas, antes, pergunta: ”quem está roendo a minha casinha?” E as crianças, com fome, respondem: -”É o vento...”


De circunstâncias em circunstâncias, João e Maria, ao final, se livram da velha que queria engoli-los. O feitiço vira contra o feiticeiro, quem queria assar Maria ao forno, acaba morta queimada.

João, atrás das grades e salvo por Maria, entra na casa da bruxa. Diante do mundaréu de arcas descobre joias e pérolas. E pensa: – “Melhor que as pedrinhas!”. Estava marcado o caminho de volta. Maria, pensando no futuro, encheu os bolsos do avental...

No caminho, o lago. Sem ponte, sem barco, surge o pato generoso que os carrega nas costas até o outro lado. Em pouco tempo avistam a casa do pai. Viúvo e pesaroso, recebe o abraço de pescoço dos filhos. Pedras preciosas e pérolas se derramam pelo chão simbolizando o reencontro, o afeto e a superação das necessidades e conflitos.





Quincas Borba


Machado de Assis
Editora Nova Fronteira, vol. 2, 2016
Resenha por Dilma Bittencourt

Descobertas em um Princípio

“Quincas Borba”, de Machado de Assis, retrata o processo de análise do princípio. E sintetiza: “Humanitas é o princípio”. A arte do equilíbrio, da busca da consciência? Um foco na sobrevivência e existência humana?

Um olhar para as condições humanas e “justificativas” para entender os fatos, os atos e as circunstâncias? Um olhar para a conciliação? Ou, “ao vencedor, as batatas”, expressão do personagem Rubião? A negação da ética pelo poder de competir, vencer e excluir? Ou apenas instinto de auto- preservação?

Um foco no individualismo que preserva interesses, constrói vaidades, dá asas à ganância e sublinha a ambição. Um círculo de atos impensados do personagem Rubião? Ou deliberado, para alcançar objetivos?

O fio do narcisismo de Rubião nos leva ao feitiço, que se desdobra em enganos, frustrações, delírio, presunção, obsessão e construção da personagem Sofia, que o leva à loucura e, por fim, à morte.

O fio de ambição de Rubião o leva a uma obrigação: cuidar de um cão (Quincas Borba) na circunstância de morte do homem-personagem Quincas Borba, que lhe confiava os cuidados de seu maior afeto. Quem sabe, único, como condição para recebimento de herança exclusiva.

E nos induz à pergunta: o que faz o homem, com o seu poder de ir e vir, ser tão inconstante? Que, sem nenhum afeto, assume tal circunstância? E o animal, na sua conjuntura, no seu quadrado de vida tão constante, abrigar no seu silêncio a dor pela perda de seu dono “Quincas Borba”, homem sensível e afetuoso?

Fome e afeto? Uma pergunta para a circunstância de morte do homem Quincas Borba, entrelaçada a uma afinidade extrema do cão Quincas Borba, logo, então, carente e solitário. Seria o cão o símbolo do afeto desinteressado? Até que ponto esse afeto leva à loucura?

Seria a fome um desdobramento do espírito e da matéria? E como o homem se coloca ambiguamente diante dessa realidade? Fome de afeto?

E a resposta está mais uma vez em : “Humanitas é o princípio”. O que faz a humanidade de um cão ter mais fome de afeto do que de comida? Até onde o afeto é natural? Circunstancial? No cão e no homem?

Até onde é valor de sobrevivência e essência? Ou, ainda, obrigação, em natureza disfarçada, do interesseiro Rubião? Até onde a rejeição e culpa torna um interesseiro afetuoso e humano?

Vocês, leitores, descobrirão no intenso e psicanalítico romance “Quincas Borba”, de Machado, desdobrado em outras personagens. “Humanitas é o princípio”.





A Terra dos Meninos Pelados


Graciliano Ramos
Galera Junior-6ª edição
Resenha por Dilma Bittencourt

Um Encontro com o Afeto

O olho mágico de Graciliano Ramos dá voz a um menino em A TERRA DOS MENINOS PELADOS.

E o mundo real do bullying, da intolerância com o diferente, da exclusão, da não aceitação de si, leva o menino a imaginar um mundo idealizado, onde um olho azul e outro preto simbolizem a singularidade de cada um, seja escuro ou alvo, sardento, ou anão.

Um mundo onde os frutos alcancem todas as mãos, o afeto se multiplique, o velho tenha eco e ouvidos para suas histórias. Em que o olho malvado do outro não conforme o olhar de todos. Em que o menino, de tanto se sentir e ouvir o “Pelado”, não some “pelado” ao seu nome e se afirme: sou eu, Raimundo!

E, assim, passe a desenhar um pais, Tatipirun, esse é seu nome, a imaginar os amigos, os rios que se abrem e fecham para lhe dar passagem, os caminhos que se alinham, em suas curvas, para suas andanças, um lugar de reencontro com os seus dois olhos, um azul , outro preto, e conviva com sua careca, sem medo de um riso debochado e sem esconderijo de quem tem medo.

As ilustrações de Jean- Claude, de forte expressão, nos dão as imagens de quem pode ouvir as vozes dos personagens.





Escute, Zé Ninguém!


Wilhelm Reich
Martins Fontes, 2001
Resenha por Dilma Bittencourt

A Ausência de Um Olho no Ouvido

“Escute, Zé Ninguém!”, de Reich, conversa em três tempos. Livro desabafo (conversa lúcida com seus interlocutores), Dr. Reich no divã se ouvindo? Tentando definir a “verdade”, convicto dos zés-ninguéns múltiplos no escuro? Tentando acender a luz a surdos?

Múltiplos zés ninguéns, autorreferentes, autoritários, irresponsáveis nas suas deduções e acusações, ferinos e mesquinhos.

O autor teoriza, analisa o Homem diante da moral relativa ao restrito individual de cada um, em sociedade. De uma ética ausente. De Zé Ninguém em seu autocontrole, onde o outro é a discórdia. Discórdia com suas exigências descabidas, com seus interesses diversos, com suas ideias estapafúrdias.

O outro é a mentira, dono de uma invenção que não pode ser dele, e o Zé Ninguém se apropria. Como se dele, em sua vaidade cínica, se apropria. E a coisa, o projeto, a descoberta, deixa de ser hipótese e passa a existir.

O Zé Ninguém fantasia em seu estado permanente de doença. O Zé Ninguém aspira, mas não respira, o sorriso de uma emoção, o choro saudável de uma dor. O laço sincero de uma amizade, a ação sem finalidade própria.

O Zé Ninguém suspira o desejo e o desalento em sua profunda solidão. Mas não se reconhece. Sou Zé Ninguém, sou? E a pergunta dorme acesa na negação!

Fatos e passagens da narrativa transportam o leitor para o seu sótão interior, em trabalho de autoanálise. Se apropriando das “verdades” contidas dos e nos zés ninguéns personagens.

Um clássico da literatura psicanalítica. Com uma linguagem acessível ao leigo e a todos aqueles que se escutam. E se perguntam: em que momento me transformo em um Zé Ninguém? Diante do poder do outro? E me transformo no alienado Zé Ninguém? Enfraquecido pelo meu algoz que não reconheço como tal...

Nossas fragilidades diante do Zé Ninguém poderoso nos faz um Zé Ninguém? Diante de paredes? Insensibilidades? Até que ponto queremos combater e nos rebelar? Seriamos nós donos dos nossos desejos? Ou seres influenciáveis? Ou seres sem escuta por conveniência?

Falta de reconhecimento do sujeito ou medo de enfrentar a onça? Uma infinidade de perguntas para cada leitor se interrogar. Um momento de reflexão diante da escuta!





Intramuros


Lygia Bojunga
Casa Lygia Bojunga, 2016
Resenha por Dilma Bittencourt

Uma História de Silêncios

Biografia, ficção, memória, invenção, Intramuros, de Lygia Bojunga (2016), conta histórias entrelaçadas de vida, em que o perfil e o rosto dos personagens traçam afinidades ou se olham do avesso.
A história da quietude, do estar só, tentando ser, respirar, longe das imposições e submissão ao mundo do ”tem de ser.” A busca do encontro com a vida, da construção e da desconstrução das dificuldades.
A história do silêncio, do estar contido, do querer ser o que se é, do estar só, mas querer abraçar as afinidades, a compreensão de ser diferente e as descobertas, no outro, como seres afins.
E também um pedaço de vida repartido entre dois lugares, Lygia descobrindo a sua morada, o seu refúgio em Londres e o seu chão no Brasil.
Lygia conversando com os seus personagens, inventando-os, dando rumo aos seus pensamentos, transformando-os, ao seu bel prazer, como uma coronela.
Nicolina, protagonista da história, se descortina em Lygia na sua habilidade de artesã, na sua afinidade com a natureza, na sua celebridade contida, Lygia avessa às sessões de autógrafos, longe das entrevistas, traço do seu jeito de ser.
Intramuros, uma fotografia de projetos de vida que envolve submissão, conveniência, sentimentos de defesa, de culpa, de posse, compartilhamento, onde o custo- beneficio de se viver e de se libertar aflora.





Pedro


Bartolomeu C. Queirós.
Global Editora, 3ª edição, 2008
Prêmio Selo de Ouro O Melhor para Criança - FNLIJ
Resenha por Dilma Bittencourt

Pedro de tantas línguas e lugares

Num dia o menino pintou o mundo com os olhos de Pedro. Tantos são os Pedros, de tantas línguas e lugares. Em Pedro, Global Editora – 2008 Prêmio Selo de Ouro O Melhor para Criança_ FNLJ, Bartolomeu C. Queirós seduz o leitor com o seu olhar despossuido das coisas, olhar de quem apenas as observa e guarda na lembrança.
O domingo e as borboletas são apenas suas metáforas para pintar a vida na cor dos desejos e intenções.
Pedro pinta sua identidade, liberdade, vontades, afetos e anseios. De olho na borboleta, pinta o aconchego e a tranqüilidade.
Pierre voa no voo da borboleta e pensa o domingo em suas asas em dia que não é domingo.
Peter pinta o mistério, a beleza, o desconhecido de um inseto. As coisas que evaporam e nos escapam. Como nos fala o autor, “Borboleta é como arco-íris ou bola de sabão”.
Pether, quem sabe, pintou a sua fragilidade e força em sua ambigüidade. A leveza de sua asa, a fortaleza de sua vontade, batendo asas para o seu equilíbrio e sobrevivência.
Pietro, observador atento, pinta o olhar lúdico de um menino, conectado à beleza e alegria das pequenas coisas, a borboleta se olhando nos olhos dele, menino. E, quem sabe, a vida e o nascimento nas profundezas da imagem ilustrada da artista plástica mineira, Sara Ávila.
E quem seria Petrus, com a sua solidão diante de um quadro?
Imaginar a trama final, os desejos e defesas de uma borboleta faz o leitor passear pelo interior poético desse autor sensível que é Bartolomeu.





Você Lembra, Pai?


Daniel Munduruku
il. Rogério Borges
Global, 2003
Resenha por: Dilma Bittencourt

Um Duo no espelho

Você lembra, pai? Um reflexo de amor. Daniel Munduruku, em prosa poética, fala ao pai com tintas de agradecimento. Pontua com a voz da saudade. Biografia afetiva, com imagens da dualidade de sentimentos. Colóquio de ternura sem pieguice.
Narra histórias em memórias vivas. Como se cristalizasse fatos, apreensões, receios, percepções, ensinamentos, a dor como amadurecimento. Experiências, tradições, traços de cultura, em busca de registros, de perpetuação.
Toma como cenário a própria vida, o cotidiano familiar. O relacionamento pai e filho. E, em paralelo, inclui a referência marido (pai) e mulher (mãe) e as consequências dessa relação: reflexão sobre atitudes, certeza de razão, teimosia e sofrimentos. Fala do dual e contraditório comportamento de um ”sabichão” em casa e de um hábil condutor no trato com o outro.
Ao fundo, as iluminadas ilustrações de Rogério Borges, plenas de sombra e luz, focam a repetição, o olhar do menino-índio, ora expressando segurança, ora um misto de inconformidade e desespero. Retratam o homem diante do caminho ambíguo.
Daniel faz um duo de biografia. Espelho de sentimentos, olhares, atitudes, questionamentos. Onde se olha e se interroga, através da figura do pai, como se pedisse confirmação de suas intenções e das intenções do pai. Como se falasse atrasado, diante da imagem do pai no espelho.
Ele fala do duplo. Um elo forte, da relação de sangue, sangue que lhe deu vida. Em posição confortável de escritor-filho. Onde ainda escuta a voz do pai ensinando, sem tom de reprimenda.
E relembra valores repassados por ele, que passeiam com insistência por suas obras. Respeito à Mãe-natureza, aos ancestrais, às etnias, ao outro, ao todo, ao criador.
Em contraponto à esfera de mundo fundamentalista, a obra de Daniel abre à criança o olho do respeito à multiplicidade. Desconstrói as verdades repletas de vazios. Um olhar à sabedoria e ao bom senso. Onde nada se dita. Apenas se conta. As mais simples e profundas histórias de vida. ​





Bisa Bia, Bisa Bel


Ana Maria Machado - Editora Salamandra- 3ª Edição, 2007.
Resenha por: Dilma Bittencourt

Um Encontro em Três Tempos

Poesia em forma de gente. Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado, uma viagem íntima no tempo. Imaginário de uma protagonista que inventa o futuro, Bel Bisa, bisbilhota o passado, Bisa Bia, e pesa o cotidiano de sua Bisa morta no presente.
Retrato simbólico e carinhoso de uma bisavó que veste colorido a vida antiga e dá conselhos à bisneta Bel. A menina, com o seu senso crítico e voz solta, sabe também ouvir e ponderar. No seu universo interior ouve três vozes, que direcionam suas ações.
Mira a sua própria voz e sua intuição (tempo real), ouve a voz do passado que se faz presente, e pensa a voz do futuro. A menina aprendendo a ler as suas emoções, lidar com as suas paixões, com o ciúme, a distinguir as pessoas como a professora Sônia, a descobrir intenções e afirmações do namorado Sérgio.
O simbolismo de uma foto antiga (Bisa Bel), no bolso da bisneta, depois perdida, em seguida achada, traduz o mapa da mina, a vivência e radiografia de uma época. E, com ela, tradições, fatos, costumes, hábitos, objetos, registro de um tempo, acompanhado do agora e da possibilidade do futuro (foto em três dimensões).
A menina busca nas histórias o sentido para as mudanças no seu próprio mundo. Explicações na dinâmica de mundo, onde o estático se move ouvindo o bom senso de quem olha as mudanças do tempo.
Uma história movida com humor, sensibilidade, criatividade, onde a criança não só reflete a família, mas também se inspira nas suas vontades, pondera as suas ações, vivendo no contexto da sua própria idade. ​





A Senhora do Galvão


Coletânea: Contos de Alcova, vários autores, edição 1963. Editora Flamingo.
Resenha por Dilma Bittencourt

Teatro do Cotidiano

Maestro da orquestração narrativa, Machado de Assis, em terceira pessoa, dá ritmo aos sentimentos e emoções dos personagens, em “A Senhora do Galvão”, inserido na Coletânea de Contos de Alcova, de vários autores, editora Flamingo, ed.1963.
Cenário de uma época, nos remete aos costumes, vestimentas, hábitos e adornos da segunda metade do século XIX.
Do coquetismo ao papel da mulher no casamento, tema central, atemporal, nos envolve com o drama da desconfiança, da traição, sempre recorrente em suas obras, das conveniências, defesa, fuga, a necessidade de vingança, e fala-nos também da hipocrisia.
Leva o leitor, com sutileza, a mergulhar na ficção do cotidiano, a dois. Numa relação artificial de ações e reações planejadas. Onde a mulher vive uma completa dependência econômica, psicológica e emocional.
Olympia, esposa de Duarte - advogado em início de carreira, logo em ascensão - mulher coquete, simbolizada pela leitura do jornal de modas e pelo gozo da admiração pública, como joia rara em exposição.
Atenta à moda, compete com a rival, viúva do Brigadeiro, amante de Duarte, que, pela voz do Machado, era o seu oposto. Cabelos de cachos, “os trazia por gosto e não por moda.” Sociável, falante, gostava de ser admirada de perto, ao contrário de Olympia.
O drama de Olympia começa quando recebe a primeira carta anônima. Tenta reconhecer a letra, não consegue. E, num tempo de convenções em que espera o marido sempre às quatro, para o jantar às cinco, os atrasos começam a lhe despertar suspeitas. E, ao mesmo tempo, a culpa simulada na credulidade de um possível acidente. A primeira reação ao atraso foi a de menina mimada, nariz arrebitado.
E quando a rotina do tempo se modifica mais amiúde, a interrogação se torna mais nítida, colocando-a na defensiva. Estuda as reações do marido. Testa-o em diversas situações. Maquiavélico, Duarte se sai com primor, deixando-a relaxada para negar o que não queria ver.
Do outro lado, os mimos, as juras de amor e os álibis. Duarte marca presença nos lugares, retém palavras para repeti-las à mulher e justificar a impontualidade e, de certa forma, sua servidão. A quem serve a farsa? Essa fria e milimétrica ação? Hipocrisia calculada?
Machado passeia com intimidade no humano, suas contradições, anseios e fraquezas. Mergulha na alma, com diferentes leituras do ser, em seu estado de conflito.
Olympia, ao mesmo tempo em que desconfia do marido, em certos momentos finge a si acreditar. Tenta se distanciar de fatos evidentes. Concomitantemente, tenta puni-lo, gastando seus míseros cobres em dois xales, sem admitir a escolha de um, quando ainda o marido não gozava de situação econômica favorável.
O tempo e o sucesso de Galvão, como advogado, lhe proporcionam jantares, bailes, teatros, até se tornar um dos nomes da moda. As desconfianças lhe passam ao largo. O sucesso a fascinava.
Até que Duarte se informa de cartas recebidas pela mulher. O jogo se inverte. Cartas de um amante? Dias em casa espionando Olympia, até que a obriga a entregá-lo a última recebida.
Mais uma carta anônima, a mais explícita, só que falando da relação da viúva do brigadeiro com Duarte.
O narrador onisciente interfere indiretamente no texto, quando dá ao personagem o caminho da ação, através da pergunta: “Que melhor ocasião para ler no rosto dele a expressão da verdade?”.
Olympia pergunta e responde, em seu contraditório modo de pesar as atitudes. Prefere negar o evidente. Abaixa a cabeça para não vê-lo empalidecer. Só a levanta, quando o marido, com o sorriso nos lábios e recomposto da cilada em que se colocara, prova sua suposta inocência.
Duarte admira a reação da mulher? Acredita na sua ingenuidade? Ou no seu poder de dissimular? Olympia se defende através da fuga? Ou da vingança?
Em primeiro tempo, continua amiga da viúva, até o dia do rompimento: “Ipiranga, você está hoje deliciosa… Vem seduzir mais algum marido?”





A Cama


Autor: Lygia Bojunga 4. Ed. Casa Lygia Bojunga, 2005.
Ilustrações: Fábio Sombra
Resenha por: Dilma Bittencourt

Um Objeto e suas Contradições

O que seria de uma família sem superstição? E qual seria a superstição de uma família rica, abastada em torno de um objeto? E por circunstancias, empobrecida, tentando conservá-lo? Que objeto é esse que guarda tantas lembranças? Que sente? Que olha? Objeto adorado, doado, rejeitado, negociado? Aconchego de tantos amores? Suplício de tantas dores?

Essas e outras perguntas cobrem de surpresas e reflexões a narrativa de Lygia Bojunga em A CAMA. Histórias que entrelaçam a vida de pessoas, temperamentos e pensamentos diversos, em torno da maldição, contemplação, necessidades, afetividade, permanência, estética, beleza, status, conforto, desconforto, humilhação, individualidade e desenlace.

A CAMA, uma personagem tão contraditória, diante do olho de cada um, diante do cenário onde se encontra. Para uns, peça fina e rara, para outros, um estorvo, numa cadeia de reações: revolta, preocupação, insegurança e para Petúnia, motivo de promessa de construção de uma relação e de troca. E o que faz da cama objeto de doação? Fruto de rejeição e negociação? Motivo de desespero? E justificativa de indenização?

O que faz um pai comprar aos 80 anos uma cama para acolher a filha? Afeto? Solidão? Exteriorização de seu afeto tardio? Ou tardiamente? Resgate? Por uma displicência inconsciente? O que faz uma mãe, no fio de outra história entrelaçada de vida, doá-la à filha? Imposição? Perdão? Aceitação inconformada de um ajuntamento? O que faz esse personagem-objeto tão sensível traduzir o sentimento de que nem tudo pode ser comprado? E expressar tanta raiva e tanta frustração? Mas o amor pode querer comprar uma cama e fazer uma promessa.

Contradições e histórias entrelaçadas fecham o círculo do afeto e da rejeição, simbolizado num objeto, que o dinheiro compra e não compra, o afeto promete, ousa e recebe na contrapartida de quem não pede e ganha.

Ao final a cama, objeto sensível aos temperamentos e circunstâncias, ressuscita das brigas, volta à família, na perspectiva de um afeto. Mote para a imaginação do leitor. A CAMA, uma radiografia do humano nas ações, decisões e sentimentos dos personagens, uma narrativa não linear e surpreendente, onde a palavra imagina e também brinca, desnudando as emoções e disfarces dos personagens, instigando o leitor ao deguste de cada detalhe da trama.





GOSTO DE ÁFRICA: Histórias de Lá e Daqui


Autor: Joel Rufino dos Santos, 3ª. ed. Global, 2005.
Ilustrações: Cláudia Scatamacchia
Resenha por: Dilma Bittencourt

Mar e Rios de História

Não importa o conto, o mito, a lenda, o reconto. Importa, e mais que importa, aquele que viveu o conto, o mito. E, mais ainda, aquele que registrou a história.

História da conseqüência e da inconseqüência do berço da humanidade: a África.

São sete histórias em que o autor sublinha preconceitos de forma invertida, com inclusão, olhando com o olho de criança, natural e espontâneo.

Uma narrativa rica de informações e sutilezas. Questiona e fala de temas como religião e Deus, em forma plural, pela voz dos personagens.

Foge das definições, com o seu ponto de interrogação, dá à criança o seu momento de reflexão.

Em “Filho de Luiza” introduz o leitor mirim na luta do negro na Bahia, por espaço e dignidade. Desperta curiosidade pela abolição, em seu enfoque histórico da revolução dos malês, iniciada em 1835. Uma rebelião que envolve escravos, libertos, senhores e quartéis.

Em “Pérolas de Cadija”, narra a história de uma menina do Senegal. Como também em qualquer conto do Ocidente, o Oriente representa o estereótipo da madrasta, sempre algoz. A ausência do pai pela omissão, e transferência de poder à madrasta. E, como vítima, a filha pela perda da mãe. As pérolas simbolizam a generosidade de Cadija e a ganância da madrasta.

O autor retrata o cotidiano através do lúdico, representado pelos monstros e anjos. Mas a persistência da menina a tira da condição de vítima, do destino traçado pela madrasta. E o coração pululando da madrasta, na panela de cuscuz, traduz a vida desperdiçada. Como em “João e Maria”, dos Irmãos Grimm, as pérolas, riqueza material, são transformadas em afeto.

Joel Rufino dos Santos ainda nos convida a ler a “Sagrada Família”, “O Leão do Mali,” ”Bonsucesso dos Pretos”, ”A Casa da Flor” e “Bumba- meu- Boi”, onde a ilustradora, com arte, exprime os gestos de incredulidade e desalento do amo com a perda do boi vindo do Egito, em Caravela. E, como diz o próprio Joel, “esse foi o primeiro bumba- meu- boi do mundo.”





Que Vida Eu Quero Ter?


Autor: Susana Maria Fernandes, Abacatte, 2012.
Ilustrações: Mariângela Haddad
Resenha por: Dilma Bittencourt

Um caracol que virou gente

Que Vida Eu Quero Ter?Essa é uma história de poesia e vida em que a autora Susana M. Fernandes dá o toque de alcance e ambição de um menino. E, assim, ela conta ao leitor a história de um menino que quis nascer na água como um caracol e como um peixe. Chegar à Terra como planta e como cobra e atingir o Céu como uma gaivota.

Mas no meio do caminho, ele encontra pedras, como fala o Drummond. Pois nem tudo é céu na água, nem com o caracol, nem com o peixe. E, na terra, cobra rasteja e gaivota é prisioneira em rede.

Então, o menino resolveu viver na Terra como gente, colocou os pés pra fora d’água como se quisesse respirar. E foi dormir como um caracol enrolado, só que num edredom, a noite inteira. E acordou do seu sonho de menino mergulhado num pote de brigadeiro, “que nem peixe em ribanceira”.

E depois dessas façanhas todas, decidiu pular como cobra ligeira e beijar a mãe. E, como gaivota certeira, achou uma piscina para deitar e pensar a vida. E no traço mimoso e olhar absorto das ilustrações de Mariângela Haddad, o menino finalmente pensa ser gente ao dizer para si: “... quero ter uma vida minha, muito minha...”

Que Vida Eu Quero Ter?Um presente de histórias. Histórias que a vida modifica e faz um caracol - menino e um menino - caracol, viver a sua própria vida.





Apanhando a Lua...


Rosane Villela, Paulinas, 2008, 1ª edição.
Ilustrações: Luis Maia.
Selecionado pela FNLIJ para os catálogos das feiras de Bolonha 2009 e Frankfurt 2010
Publicada no site da redereich
Resenha por: Dilma Bittencourt

A Expressão em símbolos

Até onde os sonhos se tornam símbolos, materializam desejos? “Apanhando a Lua”, de Rosane Villela, em prosa poética e poesia, responde.
Com contos e poemas, a autora atravessa sentimentos com unidade singular. “O Pescador de Histórias” expressa a dor, a impotência e o amor, metaforizados no símbolo de um balão.
Em “A Velha e o Menino”, brinca com o tempo, o movimento e a imaginação. Ficção e realidade dão traços à história. O pensamento do menino protagonista dá toque ao movimento (imaginação) e a realidade à velha (quadro - objeto) elemento estático. Palpável? Eis a questão.
E deixa o leitor diante da interrogação: “será que ela nasceu velha assim? Será que nunca foi menina?”.
“A Sombra e a Menina” é a criança correndo dela mesma. Rindo dela mesma. Num processo de busca e realização, com um perfil de autocrítica: da criança maliciosa à sombra amedrontada. Um jogo de pique - esconde. O sonho através da pegada e o real que se esconde.
Mais uma vez os símbolos falam: estrangeiras, de plástico, de porcelana, em “As Bonecas”, as histórias de vida marcam a relação familiar, que se vai construindo em “Ele Calçava Lâmpadas”, “Olhos que nos Espiam”, “Um Pedido de Lágrima” e “Pássaros Azuis”.
Em “O Menino que Tinha o Mar Dentro de Si”, a expressiva ilustração de Luiz Maia pinta os fragmentos de afeto, falta, ausência, substituições, encaixando todas as pedras, significando todas as histórias.
Dá cor ao cenário da autora que, harmonicamente, constrói, em palavras, o azul, o verde, o tom terra e o deserto, tentando apanhar a lua.





O Peixe e o Pássaro


Bartolomeu Campos de Queirós - Formato Editorial 1991.6ºedição
Resenha por: Dilma Bittencourt

Universo Sensível de um Olhar

Em O Peixe e o Pássaro, Bartolomeu Campos de Queirós nos leva a caminhar com o tempo e sua unidade: o homem diante do nada, podendo alterá-lo com o olhar. Conduz-nos à inquietude de dois pequenos-grandes personagens, que podem fluir diante da paisagem, mas se afogam no ar e no mar.
Será que pelo silêncio de um olhar indiferente, apressado, descompromissado, do homem diante de um peixe e de um pássaro? Diante de sua necessidade animal de sobrevivência ou de inconsciência? Ou do tempo virtual dos compromissos descompromissados?
O peixe e o pássaro, simbologia e metáfora, olhar aguçado do autor sobre a vida, conseqüências, limitações e sobre o inevitável e o inconseqüente. Olhar que nos fala da finitude e da relatividade do tempo e intensidade da vida: “Um dia na vida de um peixe dá para viver muita coisa”.
Da busca insensata do homem por mais e mais espaço, sem conseguir abraçar o outro em liberdade? Vivendo preso à sagacidade para não tropeçar nas armadilhas que a vida lhe impõe? E sobreviver além do seu medo? Da sua prepotência? Da sua fragilidade?
E ele, homem, como o peixe, olhando o vazio e sentindo “medo do anzol, redes, seca, ou peixe maior.” E como o pássaro, o “medo de pedra, alçapão, visgo ou chuva”.





O Gato e o Diabo


James Joyce, Tradução: Lygia Bojunga, Ilustrações: Lelis - Cosac Naify, 2012

Resenha por: Dilma Bittencourt
Uma ponte de afeto
Uma carta, um livro. A originalidade de James Joyce, em O Gato e o Diabo (Cosac Naify, 2012), a tradução premiada de Lygia Bojunga e o imaginário das ilustrações de Lelis, dão ao conto, à lenda, à fábula o esconderijo do sonho e da utopia do afeto.
A realidade de um gato vivo e o símbolo da doação de um gato- brinquedo no afeto de um avô (o autor). Uma cidade (Beaugency), um rio (Loire) e uma impossibilidade de travessia.
E, como o diabo se veste de anjo, surge um novo personagem, a ideia de uma ponte. Metáfora para desmistificar o bem e o mal, designificando o diabo e o nome, abrindo caminho para o bem e para o mal, frutos inevitáveis da existência! Simbolizando o homem, sua circunstância e sua ambiguidade.
Atrás de uma ponte, um Homem (o diabo). Personagem a desempenhar o seu papel de desprendimento e um prefeito (homem) da cidade de Beaugency, a calcular em seu mundo dos negócios.
Um gato frágil, sensível, inseguro, entre dois extremos, o diabo e a água fria do prefeito, no mundo da representação e dos seus representados, onde os sonhos se corrompem, a utopia aguarda, e a ética se transforma e espera. E o povo vira gato vira-latas.
Não seriam o gato e o diabo o alter ego do autor? A ponte, tradução do desejo de aceitação e de união, elo, a fantasia do encontro, de culturas, gente, de um eu carente? De um nós consistente? Tradução do exílio do escritor?
Uma ponte que nasce, um gato-gente a atravessa e o diabo o espera, na incessante busca de pertencimento e do sonho de afeto? O sonho da utopia, onde todos os homens se transformam em gatos-gente, buscando e se buscando, no encontro do outro lado da ponte?





Ciganos


Queirós, Bartolomeu Campos de. Ciganos. 14ª edição. Global Editora, 2004.

Resenha por: Dilma Bittencourt
Publicada no site http://wp.paulacajaty.com/

Um Encontro com a Alma Cigana
Num dia o autor encontrou o menino, num tempo que não existe, num espaço imaginado. Uma história autobiográfica? Biografia em ficção, uma viagem pela imaginação, um paralelo do desejo do menino com o renovar da alma cigana? Com a identidade e núcleo da família cigana?
E o menino idealizava e o autor inventava. O menino andarilho, mas escondido na casca de um caramujo, enrolado em si mesmo, tentando pescar o mundo além da linha do horizonte. Tentando descobrir o lugar imaginando. Pensando a esperança, buscando. Num movimento circular do sonho.
Encontro poético do autor com os resquícios de sua infância, tentando resgatar o menino da sua solidão, viajando num tempo da ilusão, do desejo e falta, do anseio do calor humano, da festa, da música, da tenda, do aconchego do povo cigano.
Em “Ciganos”, Bartolomeu Campos Queirós fala de carências, do vazio, de um menino que se sente só, escanteado, através do simbolismo dos objetos que lhe roubam o lugar, a presença, o afeto. E sonha com a proteção de um pai, com o amor e afeto, mesmo que silencioso, mas compartilhado.
E assim o autor cria um cenário de um tempo que não viveu e o espaço que não viu. O futuro era a incógnita, o segredo, o espanto, o mundo era o infinito do afeto, em mares e luzes distantes. O encontro com o transitório, porém eterno. Um mundo em movimento, de afetos fugazes, mas de emoções sólidas.
Em prosa poética, o autor desmistifica os estereótipos e preconceitos sobre esse povo mundano. Um contraponto à popular ópera “Carmem”, de Bizet. Dando ênfase ao trabalho diuturno do cigano. Ao toque de harmonia do seu martelo integrado à batida do sino da igreja. Desfaz o “pré (anterior) conceito “do ladrão de meninos,” simbolizado no desejo do protagonista de ser roubado e resgatado pelo pai, através da sua fantasia. E dá luz, cor, esperança, ritmo, movimento à vida do menino protagonista que se vê nos olhos da imaginação cigana…

observação da resenhista: o título ganhou o Prêmio Jabuti de literatura juvenil-CBL, selo Altamente recomendável para jovens-FNLJ, e foi um dos cinco indicados para o Prêmio Bienal Banco Noroeste de Literatura.





Todos os cachorros são azuis


Rodrigo de Souza Leão: Todos os cachorros são azuis. Rio de Janeiro, 7Letras, 2008

Resenha por: Dilma Bittencourt
Publicada no site www.germinaliteratura.com.br

Em meio à loucura, uma lúcida metáfora
Em Todos os Cachorros São Azuis, Rodrigo de Souza Leão se prende solto na jaula de suas emoções. Fragmenta, em fio, as repetições enfáticas do seu mundo interno, em conexão com o mundo externo.
Seria o mundo um romance, ou a vida um hospício? Com esse toque de duas verdades dá voz à memória refletida (ficção do real), que ora alucina, e — como sombras do seu eu, se repetem em Baudelaire e Rimbaud (personagens idealizados) —, e ora se veste de memória real (ficção das lembranças), que dormem no seu inconsciente.
O autor responde, em prosa poética não linear, ao verso e anverso da existência. Retrata a contradição do louco-são, que aprisiona, reprime e define consciente, a condição da loucura alheia, em completa cegueira.
O texto é revolucionário na abordagem, no processo de encadeamento da narrativa. Os fatos sobrevivem isoladamente e no seu conjunto.
O fio condutor do texto não depende de uma lógica de entendimento e de sensação, como elemento de prazer, conforme fala Barthes.
A consciência do leitor em tentar entender o contexto à deriva das imposições externas (conceitos, definições, "certo", "errado") torna a leitura prazerosa e fruída.
O autor, que se autodefine louco, é mais um passageiro na chuva, visitando sua alma sã e doente, como toda alma, em busca da sanidade e de um porto. "Nada que eu gosto tem nome. Tudo que é perigoso tem nome".
Transparente na essência, se revela e se descobre no mundo de competições, fragilidades e carências, de todos os homens, de todos os cachorros. Mundo cão? Mundo são?
Significações fragmentadas e sintetizadas na lúcida metáfora de Todos os Cachorros São Azuis





Mário – De pedras, conchas e sementes


Bartolomeu Campos de Queirós, Global editora, 3ª Edição, 2009.

Resenha por: Dilma Bittencourt
Publicada no site wp.paulacajaty.com

Mário, Menino Quântico
Quem seria Mário? O autor ou o seu personagem? Seria o seu nome o seu esconderijo?
“Mário era feito de águas”, diz Bartolomeu. Era vida, renovação e movimento. Mário era quântico, era tudo, mar, ar, rio, infinito e vento. Mário era marinheiro sem barco navegando nas heras, secretamente como um passageiro paciente. Bebendo sua água. Sua poesia, cor e vida.
Toda inspiração de um poeta que exala a palavra através da emoção e do seu sentimento. Seus versos brotam das pedras, conchas e sementes.
Em 1ª pessoa, Bartolomeu Queirós encontra a sua voz na 3ª, em Mário. Se esconde num ninho fechado, lacrado, correndo atrás de um pássaro que o faz livre.
E se encontra com a infância, como se tirasse do baú as lembranças. Num ar primaveril, vai poetando as heras que crescem com os seus versos. E se revelam sábias, se desdobrando pacientemente e se transformando em ritmo, harmonia na palavra do menino-poeta.
Mário? Bartolomeu? Bartolomeu e Mário? Mário e Bartolomeu?





Raul


Bartolomeu Campos de Queirós, RHJ editora, 2007, 1ª Edição.

Resenha por: Dilma Bittencourt
Publicada no site wp.paulacajaty.com

Brincadeira cósmica

Posse. Amor. Fronteiras do querer, do admirar. “Raul”, de Bartolomeu Campos de
Queirós, uma brincadeira. Uma brincadeira que brinca com as palavras numa lógica matemática.
Onde as palavras se cruzam nas ações e nos simbolismos. “O luar ruava”.
Uma veia cósmica que une as palavras, como se houvesse uma comunhão de ações.
Como se todas as ações se pertencessem, nas letras, sons, ritmos e inversões das palavras.
E comungassem numa relação de união, de fusão cósmica. Não em um ponto singular e único, mas, sim, num vazio que se preenche numa circular imagem do constante que se transforma.
“Raul é luar”.
é lua
é bola
é belo”
Sem ponto, sem vírgula, com um único adjetivo que o faz substantivo.
E o “fato do luar ser o Raul” traduz o encantamento do ser e o estar em Raul.





Branca de Neve


Resenha por: Dilma Bittencourt
Publicada no site www.revan.com.br

Apresentação de Fausto Wolff
Orelha do desenhista e escritor Ziraldo

Como no mundo, as histórias são polêmicas. Nada está pronto, muito a imaginar. E as boas histórias acrescentam ao leitor mais um olho.
...Feliz idéia da tradução de "Branca de Neve e outras histórias", dos Irmãos Grimm (Editora Revan, 2006). Do Alemão direto para o Português, Fausto Wolff aproxima o leitor à origem do texto. Sem enfeites, traz luz à cena. Com ação e palavras nuas, dá palco aos personagens, aflora as imagens. Contar "Branca de Neve" é dar voz à mulher. À soberana madrasta e rainha. É falar do contraditório, do soberano e frágil. É imaginá-la rainha sem rei. É fotografar o casamento sem festa. É falar da beleza superlativa insuficiente. É pensar o sentido da beleza sem fruição. Falar da obsessão.
Lembrar do marido da madrasta é falar do silêncio. Da pressa em ser marido, duas vezes marido. É dar nome de rei e não enxergar o trono. Como se não tivesse nenhum dono. É ouvir a soberana ordenar a morte da filha do rei. Falar do pai de Branca de Neve é falar do vazio, da ausência, da omissão. É falar do pai sem fio, sem compromisso com laços, sem afagos, sem abraços. Falar da primeira mulher do rei é encontrar o contraditório. Rainha cerzideira, mãe.Uma rainha pensando ser mãe, cerzideira sem se ver rainha.E pensar o bom do contraditório. É também falar dos sonhos, desejos e projeções. Falar das coisas simples e também complexas. Como o olhar medido na paisagem, o desejo embutido num quadro, num tempo contido de condição. "Como eu gostaria de ter uma filha com a pele cor de neve, os lábios tão vermelhos como sangue e os cabelos negros como a moldura de ébano da minha janela." Pensar na realização da mãe rainha é falar da vida (nascimento e desejo) e da dualidade do destino do desejo (vida e morte/ alegria e suplício). É registrar o ódio da madrasta, a perseguição, a desfaçatez, as maquinações, sua obsessão. "Oh, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?" Obsessão pelos olhos da inveja, da comparação, da competição, da não fruição, da tentativa de destruição, da exclusão e da autodestruição.
É desenhar o caminho de Branca de Neve. Falar da fragilidade pela perda, pela ausência. Morte prematura da mãe e ausência do pai.Voz soberana da madrasta e omissão do pai.
É falar do medo por falta de opção. Da fuga, da floresta. E, ao mesmo tempo, da coragem, da persistência. É falar do imprevisível, do outro dia. Da sorte, do abrigo.
Falar do abrigo é descobrir solidariedade e trabalho. Falar também da adaptação: da princesa à arrumação. E pensar na beleza sem utilização, na cama do sétimo anão. Beleza como contemplação. Objeto de arte. De proteção.

De proteção aos olhos do caçador, deixando-a fugir das garras da madrasta. Aos olhos dos setes anões, deixando-a dormir. E do príncipe, guardando-a como tesouro.
Contemplação destrutiva aos olhos da madrasta, ao atravessar o espelho e achar a sombra: Branca de Neve, seu algoz .Contemplação odiosa de si, e invejosa do outro.
Falar do príncipe é falar da fantasia da paixão mórbida. Da contemplação do eterno. Das coisas permanentes e, ao mesmo tempo, transitórias. Branca de Neve vive através dos olhos do príncipe, como num quadro, atrás do vidro de um esquife.
Falar dos símbolos é falar dos personagens. Da astúcia, da sedução e dos desejos. É falar dos objetos e do perigo. É deparar com as conseqüências. Branca de Neve compra o espartilho que a sufoca. O pente envenenado que a faz desmaiar, e a bela maçã venenosa que a faz cair morta. É falar do ato inocente, do desejo a engolir o perigo.
Olhar o espelho é refletir a vida, a fantasia e o real. Que ora agrada, ora desagrada, fala do conveniente e do inconveniente. É pensar no ato torpe caprichoso. É falar da prisão da madrasta: se contempla e não se enxerga. E da sua condenação e pena.

Falar do esquife é falar das conseqüências do desejo inconseqüente. Da inconseqüência gostosa de ser adolescente. Da prisão de Branca de Neve e da pena provisória. É falar do tropeço, do amadurecimento. Das conseqüências momentâneas do ato inocente. Branca de Neve acorda para a vida. Como prêmio, o príncipe. O casamento. Resgate do pai? Encanto do marido?
Os Irmãos Grimm deixam apenas sinais. Preocupam-se apenas com o destino da madrasta e com a vingança. Não através da pena momentânea, mas da pena de morte.
A festa do casamento simboliza a praça pública, onde a madrasta é exposta. Os soldados dançarinos, na precisa tradução de Fausto Wolff, simbolizam a lei de Talião: "olho por olho, dente por dente". E a madrasta arde, seus pés em chama.